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Dinheiro que vem dos "bicos"

01:30 | 26/07/2018

Embora o País tenha terminado o primeiro semestre deste ano com a criação de 392,4 mil novas vagas de emprego formal, a situação do mercado de trabalho nacional continua crítica. O índice de desemprego está em 12,7%, atingindo 13,2 milhões de pessoas.

Apesar dos números, o Governo Federal prefere dizer que o cenário é estável. Porém, o quase estagnado processo de retomada do emprego, essencial para acelerar o crescimento econômico, representa instabilidade no dia a dia da população.

 

A crise no mercado de trabalho, fruto da recessão econômica que teve início ainda em 2014, tem feito o brasileiro buscar alternativas para não ficar sem dinheiro no bolso e deixar de cumprir as obrigações financeiras. E isso não ocorre apenas entre os que estão desempregados. Mesmo quem tem o salário garantido no fim do mês, independentemente da classe social, não está conseguindo fazer o dinheiro render.

 

Prova disso é que, de janeiro a junho, 64% dos brasileiros recorreram a alguma forma de trabalho extra ou "bicos" para complementar a renda, segundo estudo realizado pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL). O número configura aumento de sete pontos percentuais em relação a igual período de 2017, quando o índice ficou em 57%.

 

De acordo com o levantamento, feito nas 27 capitais do País, 51% dos entrevistados acreditam que as condições gerais da economia pioraram no primeiro semestre deste ano, alta de 12 pontos percentuais na comparação com a pesquisa de 2017. Quando avaliam a própria condição financeira, 44% dizem que também houve piora no período. Neste caso, o aumento foi de oito pontos percentuais frente ao ano passado (36%).

 

Os números são um reflexo de que, mesmo com a inflação sob controle e a queda na taxa básica de juros (Selic), os trabalhadores estão longe de sentir os efeitos da melhora desses indicadores econômicos. Para 77% das pessoas ouvidas na pesquisa, os preços continuam subindo. Outros 56% afirmam que os juros ainda estão elevados e 54% argumentam que o mercado de trabalho segue sem contratar. Além disso, 57% dos entrevistados apontam que ficaram desempregados ou tiveram algum parente que perdeu o emprego nos últimos meses.

 

De fato, o desemprego tem sido o grande entrave para a volta do crescimento econômico do País. Sem trabalho, não há renda. Mas existem outros problemas, a exemplo da não aprovação das reformas previdenciária e fiscal e da dificuldade do Governo em estancar o déficit público, responsáveis pelas constantes revisões para baixo do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano. A previsão do Banco Central para o crescimento da economia, que no início de 2018 era de 3%, já caiu para 1,6%.

 

Nesta semana, após três revisões para cima, o Fundo Monetário Internacional (FMI) também rebaixou a projeção para PIB do Brasil, destacando em relatório que a economia deverá avançar apenas 1,8%. A organização observou ainda que, sem as reformas e com a incerteza quanto ao resultado das eleições de outubro, o cenário pode piorar.

 

Raone Saraiva 

raonesaraiva@opovo.com.br

Jornalista O POVO

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