VERSÃO IMPRESSA

21 linhas

01:30 | 31/07/2018

Falar de tempo... Deste atual, complicado, cheio de curvas enviesadas. Também com passagens boas, claro, mas travoso, amargo. E dizer algo do outro, o tempo que o relógio já contou. De coisas também boas de lembrar ou não. Não é saudosismo, não é devaneio. É só referência particular que alinho aos dias de minha filha.

 

Júlia disse ter gostado do tema da Redação no vestibular da Uece: "Era sobre o tempo". Descolada desde o cabelo à playlist, desapegada de figurino de grifes e até de livros lidos (gosta mais dos que não leu ainda), ela discorreu sobre o tempo no formato de crônica. Acho a mais livre das escritas. E a mais difícil. Para a Comissão Executiva do Vestibular bastava o mínimo de 20 linhas, máximo de 25. Cruzou o tempo em 21 linhas.

 

Agora é que são 19 do primeiro tempo da vida dela. O jogo só no começo. Júlia faz 20 anos em setembro. Muita história porvir. Quem passou pelos 20 ouviu isso. Lembrei de quando disse ao meu pai, em 1988, que não faria Engenharia Civil, o que ele quis pra mim. Acho que demorou a entender que eu não saberia vender nem ser bancário, muito menos projetar um edifício ou mais um viaduto na cidade. (A essa altura também já havia rodado meu projeto da infância, de ser jogador de futebol.) Hoje em dia ele que me pede o jornal. Até gosta.

 

Na conversa de anteontem com a Júlia, enquanto voltávamos para casa, lembrei de 27 anos atrás. Nem comentei com ela. Num mesmo 31 de julho feito hoje me meti numa redação de jornal. Nem sabia se seguiria, se gostaria. Não saí.

 

Júlia já é aluna da UFC. "Ela faz cinema/Ela faz cinema/Ela é a tal/Sei que ela pode ser mil/Mas não existe outra igual", cantou Chico Buarque e minha menina cabe nos versos. O tempo correu, a roda girou. Ela quer outros ares, se ampliar. Ou mudar mesmo. Voar. É o tempo de tentar saber. Se não for pelo Cinema, talvez as Ciências Sociais possam ajudá-la a entender mais desses tempos aflitivos.

 

Não quis falar dos tempos de agora debatendo violência, medo, cercas ou torres de vigilância. Não quero me referenciar destes dias lembrando de atentados e intimidações ou entrar na análise das picuinhas político-partidárias. Não vale apontar se o fulano de hoje é tão ou mais frouxo que o sicrano de tempos atrás. Ambos devem estar com a razão sobre o que acusam. Prefiro falar desta época em que uma jovem se encontra com suas decisões. Tudo a seu tempo.

Por onde for, não será fácil.

 

Cláudio Ribeiro

claudioribeiro@opovo.com.br

Jornalista do O POVO

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