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Violência: a dor social deve estar junto à dor individual

01:30 | 05/06/2018

Começo afirmando que toda dor, medo e sensação são legítimos. E únicos. Quando se trata então de ter a vida invadida por um estranho, que lhe coloca uma arma na cabeça (na sua ou na dos seus), ameaça e leva embora um objeto fruto do suor… digo isso porque já vivi e senti esse aperto no peito, fruto da insegurança. Mas ando refletindo um pouco mais sobre esses sentimentos, depois da morte de Lívia Thaynara Lopes de Sousa, 10, no dia de Corpus Christi. Ela estava em casa, jantando e assistindo TV, quando foi atingida por uma bala na cabeça. Briga entre organizações criminosas em área periférica do bairro Henrique Jorge. Este ano, outras três crianças foram vítimas de embate entre criminosos ou entre policiais e criminosos. 


No meio dos tantos medos de hoje em dia (do celular roubado ou do assalto a carro na Aldeota) será que paramos, por um momento que seja, para pensarmos em outras dores? Aquelas que estão na periferia, num contexto estigmatizado, vulnerável e quase sempre violento? E digo pensar, porque sentir mesmo, por mais que eu chore, que me veja no contexto da maternidade e tente me colocar no lugar da mãe da Lívia, a dor só quem sentiu foi ela.
 

Como um amigo-jornalista me disse, a violência é epidemia, se alastrou, e está tão banalizada (para alguns, na casa do sem jeito), que acaba só assustando quando chega perto. “E trauma aí, vai bater em cada um de uma maneira diferente”, ele disse. É preciso compreender o medo da moça que teve o celular roubado em um ataque com arma! Mas é preciso saber que a dor social deve estar junto à dor individual.
 

E quando penso novamente naquela mãe, que perdeu a filha dentro de casa. Penso no trauma, na desilusão, no acabar da vida e das perspectivas. E faço aqui algumas perguntas: saber que a violência pode ser bem maior do que aquela dos discursos de “não podermos ir a lugar algum” ajudaria a mudar alguns cenários? Nos colocar no lugar do outro faria com que as proteções fossem mais iguais? Saber as causas do aumento da violência faria diferença em como as consequências são vividas?

 

Sara Oliveira
saraoliveira@opovo.com.br
Jornalista do O POVO

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