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Sequestraram a canarinho

01:30 | 12/06/2018

Engaiolaram a canarinho. Há poucos dias do início da Copa do Mundo da Rússia não tenho caminhado por tantas calçadas pintadas e riscadas com gesso: “Rumo ao hexa”! Não vejo bandeirinhas balançando, dependuradas e baldias. Não encontro camisas da seleção em toda esquina, estufadas e orgulhosas. Não! Percebo apatia e indiferença. Algum ressentimento até. 


O clima em nada se assemelha com a Copa do Mundo de 2014. O “não vai ter copa” era um grito contra o abuso do gasto público no evento. Um grito contra injustiças. Mas a gente sabe como é: imagens editadas, corta para o comentário do âncora que guia o raciocínio, cola novas imagens na sequência, completando a lógica. Orientados pela telinha, sequestraram a narrativa e aplicaram o efeito bumerangue.
 

É a batalha semiótica: o verde e amarelo foram associados a um nacionalismo estúpido que carrega a má intenção facistóide. A camisa da “seleça” virou símbolo dos paneleiros e manifestoches. Como é que eu vou torcer desse jeito? Grito contido, entalado. 

 

Ressignificaram com perversidade. Lamento, Novos Baianos. Lamento muito, Chico Buarque. “Em virtude do tempo, hoje não tem futebol”.
 

Comerciais caros no horário nobre da TV querem fabricar um clima que não tem lastro nas ruas e vielas. Artistas fabricados tentam vender uma ideia de união para uma nação rasgada pelo golpe de 2016. A mesma nação que agora trata a política como um jogo de futebol. Torcida, papo de boteco. Técnico e jogadores fazendo publicidade para grandes bancos, empresas de perfumaria e lojas de departamento. Fifa e CBF são um antro de corrupção. No botequim, escala-se o pleno do Supremo Tribunal Federal com mais precisão que a seleção canarinho. Quantos volantes mesmo?
O ambiente é todo muito falso. Às favas com seu discurso de coesão. 

 

Não tem união nem acordo: temos sim, um preso político no País. Contudo, pesquisas de intenção de voto, insistentemente, apontam que o jogo pode virar e que, perdoem, ele só termina quando acaba.

 

Yuri Holanda Cruz
yuriholandacruz@gmail.com
Sociólogo e conselheiro da O POVO CBN

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