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Rede de Afetos: práticas poéticas de re-existências

01:30 | 02/06/2018

Os desdobramentos das jornadas de junho de 2013 somados às ocupações dos secundaristas em mais de 175 escolas no estado do Ceará contribuíram para o surgimento de novas práticas de resistências juvenis em Fortaleza. Por meio da incansável busca pela autonomia e organização cada vez mais horizontalizada, participantes dos saraus, poetas e poetisas marginais (em sua maioria moradores das periferias) defendem a arte de inventar como uma arma pela existência. Alguns poetas e poetisas, inclusive, fazem da poesia um “corre” (expressão que, entre outros significados, expressa a luta cotidiana) pela sobrevivência recitando nos ônibus em troca de contribuições voluntárias. 


Resistir para continuar existindo por meio da poesia face a face dos saraus de rua e transportes públicos, da escrita fotocopiada e compartilhada em fanzines ou pela produção de contranarrativas de coletivos de audiovisual (como o Tentalize e o Zóio). É por meio da criação como prática de luta pelo reconhecimento e pela existência que cada sujeito inventa a si e o coletivo. São, em sua maioria, adolescentes e jovens que se apropriam taticamente de espaços públicos criando atalhos e possibilidades. Dimensões essas em que se manter vivo é re-existir e sobreviver é o princípio do significado de resistência. Um jogo entre falar da existência, tentar sobreviver, ser visto e ouvido.
 

Mais que um culto à poesia, tais práticas ritualizadas nos saraus e  nas performances poéticas dentro do busão são relatos de vida, reivindicação da existência, subversão dos códigos sedentários do Estado, denúncia dos diferentes tipos de violências históricas e do genocídio cotidiano nas favelas e periferias por meio de extermínios e chacinas.
 

Os fanzines também têm sido uma das ferramentas de difusão da escrita autoral dos poetas e poetisas marginais nos saraus e também nos ônibus. Uma escrita-experiência objetivada pelas vivências.  

 

Neste contexto, seguindo a escritora brasileira Conceição Evaristo, tais obras podem ser tomadas como uma “escrevivência”.
 

As diversas aglutinações das práticas-poéticas juvenis podem ser encaradas como nós de entrelaçamento que compõem a Rede de Afetos, pois, de acordo com o filósofo Frantz Fanon, “o verdadeiro salto consiste em introduzir a invenção na existência.” Este “salto” é um confronto face a face com a existência aprisionada que insiste (e não se cansa) de criar para existir.

 

Rômulo Silva
romulofilosofo@gmail.com
Mestrando em Sociologia (Uece)

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