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Genuíno mas injusto

01:30 | 27/06/2018

A União Europeia reagiu rápido ao resultado das eleições na Turquia. Em declaração, o bloco se recusou a felicitar Erdogan pela vitória, afirmando que as condições para a votação não haviam sido igualitárias. Com 52,5% dos votos válidos na corrida presidencial, Erdogan também garantiu maioria no Parlamento. A exposição da UE explicava que os eleitores tiveram, sim, uma votação genuína, mas que as condições das campanhas não foram justas. 


Basta lembrar que um dos candidatos, o curdo Selahattin Demirtas, do esquerdista Partido Democrático dos Povos (HDP), está preso desde 2016 e precisou fazer sua campanha atrás das grades. Além disso, o Estado de Emergência, ampliado pela sétima vez consecutiva em abril dilatou a permanência de uma estrutura legal restritiva contra liberdade de reunião e expressão, inclusive na mídia. Dados não oficiais divulgados em fóruns da oposição indicam que a cada 11 horas de presença de Erdogan na TV, os outros candidatos recebiam menos de uma hora.
 

Referido pelos seguidores e admiradores por termos como “senhor” e “rei”, Erdogan vê agora ampliados seus poderes executivos. O quadro é preocupante: a Turquia tem a segunda maior potência armada entre os países membros da Otan, serve como ligação territorial entre Europa e Oriente Médio e faz fronteira com países onde o Estado Islâmico representa uma real ameaça. Na tentativa de amenizar a rigidez do cenário, espera-se que uma de suas primeiras decisões seja reverter o Estado de Emergência. Sinalizaria alguma boa intenção de sua parte.
 

Mas Erdogan é imprevisível, e seu escopo de ação é guiado por pretextos no mínimo aleatórios. No início de 2017, em visita diplomática aos Estados Unidos, os guarda-costas do presidente turco agrediram manifestantes que protestavam com bandeiras do partido curdo PYD contra o encontro dos líderes em Washington - que defenderam o fortalecimento de laços mútuos entre as nações. As agressões receberam menos divulgação do que mereciam, e os EUA acabaram rejeitando as acusações contra os 15 membros da segurança de Erdogan.
 

As críticas da UE ao resultado das eleições são oportunas. Que todos os olhos se voltem para o que está acontecendo na Turquia.

 

Jáder Santana
jader.santana@opovo.com.br
Editor do O POVO

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