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Editorial. Autodefesa comunitária

01:30 | 12/06/2018

Uma matéria publicada pelo O POVO, ontem, deu visibilidade a um fenômeno, que não é recente, mas, nos últimos tempos vem-se intensificando de maneira crescente: o fechamento de ruas, em bairros periféricos - e até em áreas nobres - pelos próprios moradores, para se autogarantirem um mínimo de segurança contra a ação de malfeitores, através da instalação de algum tipo de vigilância privada. O que deveria ser um serviço prestado pelo poder público ao cidadão, em contrapartida aos impostos pagos, tornou-se impossível de ser prestado, visto que a degradação da malha social é tamanha e tão ampla que não consegue ser coberta pela arquitetura institucional, por impossibilidade completa de financiamento público, num quadro já por demais exorbitante de restrições de gastos públicos. 

Os cidadãos, diante dessa contingência, veem-se obrigados a tomar iniciativas próprias para sobreviver a uma situação de insolvência social e institucional. Apelam para formas próprias de resguardo, na tentativa de se protegerem do caos (e isso está acontecendo no Brasil inteiro, e não se circunscreve apenas aos grandes conglomerados urbanos: vai-se espalhando por todos os espaços de convivência).
 

Contudo, a maior tensão localiza-se na última retaguarda em que se refugia o cidadão: o recesso do lar, a toca que lhe resta como último espaço de segurança para si e os seus. Ao menos aí, tem o sagrado direito de estar a salvo da insegurança que se instalou de vez, além da soleira de casa. Ao tentar montar uma barreira mínima de contenção da ameaça externa, termina atropelando fronteiras legais que servem de anteparo a uma convivência minimamente civilizada, na qual seja possível manter intocadas as conquistas da democracia: o direito de ir e vir, a livre opção de ordenar a própria vida segundo suas posses e não ficar obrigado a assumir um compromisso para o qual não se organizou financeiramente (exemplo: ser obrigado a pagar uma taxa de proteção para poder residir em determinada área; ou ficar submetido a chantagens de milícias ou de vigilantes de rua etc).
 

Diante desse quadro de desolação e de impotência, soluções simplistas como a de que é possível resolvê-lo pelo reforço dos instrumentos de segurança - pública ou particular -crescem e são “vendidas” à sociedade por quem quer encobertar as causas reais e estruturais da insegurança: um modelo de sociedade descuidado para com o bem geral dos cidadãos e voltado para poucos, onde quem menos tem rendas é quem mais paga para manter uma forma de organização socioeconômica inviável - voltada para a inclusão de apenas 35% da população -, cuja desigualdade é alimentadora da violência.

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