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Dia dos Namorados

01:30 | 13/06/2018


Henry namorava June que namorava Anaïs que em algum momento seduziu o próprio pai como estratégia de vingança pelo abandono do passado. No mais brega dos dias do ano, quando mal se abrem os olhos e a cafonice do amor explode em mil declarações, faço um esforço para lembrar das histórias de desejo e carne que a escritora francesa Anaïs Nin celebrou nos tantos Dias dos Namorados que viveu. 


Não que seja difícil lembrar de qualquer coisa que Anaïs tenha feito em seus 74 anos de vida. A escritora fez questão de documentar cada uma das sensações que experimentou em uma série de diários que cobrem a maior parte de sua juventude e vida adulta. Reunidos em Henry e June, talvez o mais conhecido dos volumes publicados, estão os anos de 1931 e 1932, quando a autora recebeu a visita de Henry Miller (o cáustico autor de Trópico de Câncer) e sua esposa June, uma femme fatale nascida na Romênia.
 

Seduzida por sua genialidade errante, Anaïs compartilhava lençóis com Henry. June, a mulher que ela queria ser, também brincou entre aqueles travesseiros. Quando cansava do casal, Anaïs buscava refúgio entre os braços do psicanalista, de um primo próximo, de uma desconhecida de lábios vermelhos em uma festa do ópio. Tinha muitos namorados a celebrar nos dias santos.
 

O mais polêmico volume de seus diários talvez seja Incesto (1932 - 1934), no qual narra a saga de ressentimento, desejo e vingança que cumpriu movida pelo desaparecimento do pai em seus anos de infância. Anaïs seduz o velho pianista cubano, enredando-o em seus braços, carne de sua carne. Quando está segura da paixão do outro, da dependência, da servidão, o abandona. Grande revanche familiar.
 

Lembrei de Anaïs durante todo o dia de ontem. A cada declaração de amor no Instagram, a cada foto de cadeados rabiscados no Facebook, pensava que a cafonice dos apaixonados está a um passo da hipocrisia dos frustrados. Nos portais de notícias, lindos casos de amor e perdão, de tempo e reencontro, de velhice e companhia. Chocolates. Cupcakes. Cupidos. 


No almoço, me servi de um pedaço sangrento de carne.

 

Jáder Santana
jader.santana@opovo.com.br
Jornalista do O POVO

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