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Ciclo de instabilidade política

01:30 | 11/06/2018

O desejo por ordem, impaciência e crença numa solução imediata generalizaram-se na sociedade brasileira. A paralisação dos caminhoneiros expressou a revolta do povo contra a situação atual. 

 

O movimento com pauta restrita de redução do preço do diesel ganhou força com o apoio popular. Rebelião popular. Na fase final, propôs um meio de mudar o Brasil: destituição da atual classe política por um governo técnico, comandado pelos militares. Ao criticarem a casta dos políticos, acreditam numa gestão técnica da decisão pública, relegando a democracia e a negociação como instrumento fundamental para resolução dos problemas coletivos.
 

O gigantismo da máquina pública federal tornou-se crucial para assegurar governabilidade. Nela o chefe do Executivo apoia-se para estruturar base de apoio parlamentar. Sem esse componente e a inexistência de partidos fortes, fragmentação partidária, não há governabilidade. O sistema funciona com dois polos de poder: Executivo forte coordena as ações do Congresso fragmentado. Para agir e coordenar as ações, o Executivo precisa aglutinar em torno de sua agenda os interesses dos partidos – interesses são quase sempre fisiológicos. Como sair desse círculo fechado de auto incentivo num cenário de maior atuação das agências de controle interno do Estado? Problema gravíssimo!
 

As últimas manifestações de massa no Brasil – 2013, 2016 e 2018 – têm em comum uma rebelião popular contra governo. Essas crises revelam a necessidade de um novo pacto entre a sociedade e o Estado. O vácuo de lideranças torna essa tarefa mais complexa. Pelo visto também ninguém está contente com as opções apresentadas pelo sistema político: a manifestação revelou a reprovação de todos os candidatos. A impaciência em relação às eleições também significa desconfiança que mudanças significativas não virão com elas.
 

Identificar os motivos do apoio popular à paralisação dos  caminhoneiros é o maior desafio para quem deseja melhora as condições de governabilidade. Desejos contraditórios – melhores serviços públicos e recusa aumento de impostos – revela que ainda não nos damos conta que a luta é contra privilégios. Há inegavelmente maior consciência fiscal do cidadão, expressa na raiz desse movimento. Ela indica também o fim de um ciclo e transformação social e política de forma definida. Até então as eleições e o processo democrático foram vias para repactuação do cidadão com o governo. E se esses mecanismos já não estejam mais em condições de agir eficazmente. Como assegurar as mudanças no quadro de um Estado mais eficiente, menos gastador, menos privilégios, preservando as regras democráticas?
 

As ideias que agora nos governam são de criminalização da política e da democracia. Enquanto parte da opinião pública percebe o caráter extrativista do Estado brasileiro frente à sociedade, outros ainda atribuem essa função apenas a classe política. Mas caminhamos progressivamente para uma visão mais unificada que não se trata apenas da classe política, como agentes privilegiados desse extrativismo, mas todo o aparelho do Estado precisa ser reformado e adequado ao tamanho que a sociedade julga sustentável. Percebe-se em diversos setores sociais e na vida cotidiana uma impaciência e generalizado desejo de ordem e luta contra privilégios. Tudo começou lá atrás com a judicialização da política e caminha para a judicialização de todas as esferas das relações sociais.

 

Valmir Lopes
lopes.valmir@gmail.com
Cientista Político e Professor da UFC

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