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Socialismo não é comunismo

01:30 | 21/05/2018

É fato que estamos vivendo um momento de exacerbação ideológica emocional. Vivemos uma onda de fanatismo, fundamentalismo e obscurantismo que encobre tanto posicionamentos de esquerda quanto de direita. Aliás, está ficando difícil saber o que certos termos significam de tanto serem utilizados mais como insultas do que como conceitos analíticos capazes de esclarecer determinadas situações econômicas, sociais e culturais. As pessoas acusam-se mutuamente de serem coxinhas, petralhas, direitistas, esquerdistas, comunistas sem que se saiba exatamente seus sentidos. Assim recebi, via WhatsApp, um retrato de Karl Marx com os dizeres: “200 anos de Karl Marx e o socialismo ainda não deu certo”.
 

Para elevar o debate político e ideológico faz-se necessário reencontrar o significado dos termos que usamos e discutir ideias e não lançar afrontas. Ocorre que socialismo não é comunismo e uma pessoa (um candidato) pode ser socialista sem jamais ter sido nem querer ser comunista. Historicamente, o movimento socialista é anterior a Marx e surgiu como um protesto contra as desigualdades intoleráveis que acompanhavam o início da Revolução Industrial. É que a acumulação primitiva do capital, que iria financiar a industrialização capitalista na Europa Ocidental, foi acompanhada pela pauperização da maioria da população, o mesmo processo se repetindo com a consolidação do capitalismo no Brasil. O socialismo foi e continua sendo uma reação à pauperização das massas trabalhadoras e suas primeiras reivindicações foram a limitação, por via legislativa, das horas diárias trabalhadas, a proibição do trabalho infantil etc. O socialismo nasce, portanto, sob o sinal da solidariedade, da justiça social, da distribuição da riqueza entre todos os agentes econômicos, contrapondo-se à violência do mercado, que acumula riqueza numa ponta e, noutra, dependência e exclusão. Se o capitalismo visa a acumulação do lucro através do assalariamento do trabalhador, o socialismo se guia pelos valores de equidade, igualdade e solidariedade. Socialismo, portanto, não é comunismo, não é totalitarismo. Desde 1917, ocorre uma ruptura definitiva entre o socialismo que recebe também o nome de social-democracia e o comunismo burocrático e totalitário, soviético ou não.
 

Pouco a pouco, a exigência do socialismo em matéria de redistribuição penetra profundamente na cultura moderna e exprime-se hoje com uma intensidade talvez ainda mais forte na medida em que não é satisfeita, sobretudo no Brasil. Contrariando os dizeres de que o “socialismo não deu certo”, é forçoso constatar que os países que deram certo em termos de participação democrática, dignidade humana, condições de trabalho e de remuneração, ética na política, igualdade das mulheres, segurança, habitação, educação e saúde públicas de qualidade etc. São países socialistas (social-democratas) como Dinamarca, Suécia, Finlândia, Noruega, Alemanha, Portugal etc, ou países influenciados pelo socialismo, como o Canadá.
Em suma, socialismo é a afirmação de um conjunto de valores universais. O desafio é encontrar meios de implementar esses valores fortemente democráticos e humanistas na nossa sociedade, essa sim que não vem dando muito certo por falta de políticas socialistas.

 

André Haguette
haguetteandre@gmail.com.
Sociólogo e professor titular da UFC 

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