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Os parafusos da política

01:30 | 14/05/2018

Valmir Lopes

lopes.valmir@gmail.com

Cientista Político e Professor da UFC


Crises fazem esquecer tudo que sabemos sobre a lógica estruturadora das sociedades. Estamos em plena primeira rodada das eleições. A campanha eleitoral oficial começará em 16 de agosto, e para o povo somente em setembro. Na atual rodada, os candidatos procuram se viabilizar num universo restrito de eleitores formado por candidatos, partidos, pessoas que vivem da política, formadores de opinião, cidadãos mais ativos, meios de comunicação e redes sociais.Nesse público,muito restrito, costuma-se dar a impressão que tudo que se faz é decisivo. O momento é de seleção de candidatos, competição entre candidatos. Depois, iniciamos a disputa pelas mentes e corações dos eleitores e a fase decisiva.


A ordem institucional alcançada nas duas últimas décadas entrou em crise depois de 2013. O sistema político foi abalado principalmente pela ação das agências de controle interno do Estado brasileiro com a descoberta dos casos gigantesco de corrupção. A incerteza reflete esse quadro de instabilidade. Desse quadro confuso, fala-se na existência de uma insatisfação difusa no eleitor em relação a classe política. Haveria por parte da sociedade a expectativa de mudança pelas eleições, por isso o desejo de alguém de fora da política. A presidência Temer pode servir de parâmetro para analisar o comportamento do brasileiro: governo sem nenhum apoio popular, acusado de corrupção, paralisado e mesmo assim sem movimentação e contestação pública. O desejo de ordem para tocar a vida parece ser o sentimento dominante. Que haja mudança, mas dentro da ordem, nada contra a ordem.


Na época de estabilidade, o sistema eleitoral brasileiro girou em torno da disputa entre PT e PSDB como forças organizadoras da opinião pública e sempre contou com a presença, nas eleições, de um terceiro, que falava a um público disposto a apostar numa via alternativa. Os polos opostos foram desestruturados parcialmente. A novidade é a organização da terceira via já em tempo de pré-campanha. Fala-se de um centro porque a fração de extrema-direita acomodada antes no PSDB foi isolada com candidato próprio. O lulo-petismo dificilmente perderá sua centralidade como polo aglutinador. Imagina-se que a extrema-direita não resistirá ao combate eleitoral. Os instrumentos clássicos necessários e eficientes usados nas eleições anteriores não podem simplesmente ter pedido sua eficácia em tempo tão curto. Estrutura partidária, recursos financeiros, alianças eleitorais são recursos primários para se ganhar uma eleição nacional.


Não seria surpresa o retorno às alternativas clássicas do sistema institucional brasileiro com a presença de candidatos que efetivamente têm interpretações distintas cristalizadas sobre os problemas nacionais. Esses, apesar dos abalos, ainda continuam sendo as forças dominantes da política brasileira: conservadores moderados, liberais exaltados e a presença de uma terceira via com expressão dos segmentos de classe média dos grandes centros urbanos. Ocorre que essa terceira via nunca estruturou uma interpretação clara, organizada e coerente sobre nossos problemas. Provavelmente não terão tempo nem inteligência para definir essa interpretação. Essa são as forças estruturantes da política brasileira e nada parece indicar que tenham se pulverizado nem surgido alternativas. A eleição tratará de restabelecer a ordem das coisas, mas não significa, nem de longe, o fim da agonia nacional e reconquista imediata da estabilidade política.

 

GABRIELLE ZARANZA

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