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O Brasil de Bruno Rafael

01:30 | 23/05/2018

Leiam este texto com olhos de quem assiste a um vídeo gravado na horizontal a pedido do William Bonner. Estou diante da Escola Estadual de Ensino Profissional Balbina Viana Arrais, em Brejo Santo. O zoom é voltado à sala da turma de Edificações I. À frente de meninos de 14 a 16 anos, lá está o professor Bruno Rafael Paiva. Parado, não sabe o que fazer. Eis o Brasil que eu quero. 


No mesmo Estado onde uma professora foi punida por ministrar conteúdo de cultura afro-brasileira, é bonito ver que a situação tem jeito. Bruno dá aula de artes e está com esses alunos há apenas dois meses, substituindo colega de licença médica. Em pouquíssimo tempo, ele conseguiu cativá-los a ponto de motivar a turma a elaborar uma rifa. Organizados, conseguiram o montante de R$ 400 para aplacar a ausência de salário daquele profissional %u2014justificada pelos imbróglios contratuais.
 

Essa capacidade de autogestão pegou a escola de surpresa. É que aquele grupo é conhecido como o mais danado da instituição. A ação foi prova de que, por trás dessa inquietação, pulsa uma turma cheia de ideias que não cabem na estrutura muitas vezes limitante do ambiente escolar. Reparem na 

beleza da homenagem. Criatividade tem ali e muito.
 

Já a saga de Rafael escancara as dificuldades de professores na Capital e no Interior. No extremo oposto de um juiz com auxílio-moradia, vive um docente cuja opção de casa se tornou a própria escola. Sem salário, Bruno, morador do Crato, não tinha como bancar aluguel em Brejo Santo. O caso é uma triste brecha na estrutura do Estado que ostenta o número de 77 das 100 melhores escolas públicas do País, segundo o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (2015).
 

Graduado em música pela Universidade Federal do Cariri (UFCA), o professor leciona há quatro anos, mas esse foi o %u201Cdinheiro mais valioso%u201D já recebido por ele, conforme disse em entrevista à Fátima Bernardes.
 

Através do empenho dos alunos, a história desse cearense ecoou em todo o País. É inspirador, uma aula aberta sobre empatia, articulação e atrevimento. No vídeo que trouxe essa história à tona, Rafael afirma, trêmulo: %u201CVocês não podiam ter feito isso%u201D. Ainda bem que a turma é danada.

 

Renato Abê
orenatoabe@gmail.com
Jornalista
do O POVO

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