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O 13 de maio não deve ser comemorado

01:30 | 14/05/2018

Hilário Ferreira

hilario.ferreira@fate.edu.br

Professor e pesquisador da história e cultura negra cearense


Segundo o IBGE (2016), a população negra no Brasil representa 53,9% da população brasileira. Esse dado mostra que o Brasil possui a segunda maior população negra do mundo, perdendo para um único país da África: a Nigéria. Para termos uma ideia, há mais negros no Brasil que em Angola. Porém, esta realidade nos leva a pensar: se a população negra é a maioria, por que não encontramos negros e negras em espaços de grande importância e poder? A resposta pode ser encontrada no racismo, uma ideologia de poder construída historicamente e responsável por estruturar racialmente a sociedade brasileira.


Faz-se 130 anos que a escravidão foi abolida legalmente neste País. Entretanto, pouca coisa mudou para o povo negro. De escravizados, passaram a marginalizados. Não há o que comemorar. Primeiramente, porque liberdade não se concede, se conquista. Nestes 130 anos, como nos diz a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, “O que nós temos feito nesses 130 anos é não apenas dar continuidade, mas radicalizar o racismo estrutural.”


Vejamos então informações oficiais que tratam da condição socioeconômica e educacional dessa população no Brasil. Segundo O Atlas da Violência 2017, lançado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a população negra corresponde a maioria (78,9%) dos 10% dos indivíduos com mais chances de serem vítimas de homicídios. De cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. Informações do IBGE de 2016, quanto a renda: dos 10% da população com menor renda, 75% são pretos ou pardos. Grau de escolaridade: 45% da população preta ou parda não concluiu o ensino fundamental. No caso da habitação: pretos ou pardos estavam 73,5% mais expostos a viver em um domicílio com condições precárias e 67% do público atendido pelo SUS é negro (Ipea 2008).


A existência e o fortalecimento do racismo no Brasil de hoje representa um forte questionamento ao 13 de maio de 1888. E fica a pergunta: quem se beneficiou com esta falsa abolição?

 

GABRIELLE ZARANZA

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