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Governos progressistas e a teoria das ondas longas

01:30 | 03/05/2018

Na década de 2000 e adjacências, as Américas assumiam seu papel no cenário geopolítico: o papel de novo mundo. No Brasil, havia um popular presidente operário que mais tarde seria sucedido pela primeira mulher presidente. Na Venezuela, o eleito reduzia a pobreza de maneira contumaz. 

 

Na Bolívia, um indígena assumia o poder pelo voto popular. No Uruguai, havia um agricultor na cadeira. No Equador, o mandatário vinha de família proletária. Nos Estados Unidos, assumia o primeiro presidente afro-americano. Foram anos de oxigenação.
 

A teoria das ondas longas do capitalismo é resultado de um estudo, abalizado em análises estatísticas, sobre os circuitos do desenvolvimento econômico do sistema. Funciona assim: ciclos com duração determinada apresentam flutuações relativamente regulares. Essas flutuações seriam uma característica do capitalismo. Uma fase de ascensão é seguida de outra de depressão econômica, sucessivamente, formando algo como ondas. A tese foi desenvolvida pelo economista russo Nikolai Kondratiev, lá pelas barbas grisalhas de 1920. Sua teoria até hoje é revisitada.
Ligando os fios:
 

A teoria das ondas longas pode ajudar a explicar como se deu o período de prosperidade experimentado desde o final da década de 1990, e sua gradual decadência a partir da crise mundial iniciada em 2007. Cá nas Américas, foi durante esta janela de prosperidade que governos alinhados às minorias atuaram. Latu sensu e guardadas as peculiaridades, políticas de inclusão social e transferência de renda entraram nas pautas governamentais. As condições favoráveis do sistema, alinhadas à oxigenação política, eram terreno fértil.
 

Hoje, o cenário que encontramos é composto por alguns governos empenhados em corroer direitos conquistados. O discurso do ódio se espalha feito fogo usando xenofobia e nacionalismo como combustíveis. O sopro de ideias progressistas, que há bem pouco tempo vinha das Américas, agora vem da fonte mais insuspeita: a milenar Igreja Católica e seu papa Francisco.

 

Yuri Holanda Cruz
yuriholandacruz@gmail.com
Sociólogo

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