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Editorial. Greve dos caminhoneiros

01:30 | 23/05/2018

É difícil saber se o governo de Michel Temer foi surpreendido pela greve dos caminhoneiros, pois, com os serviços de inteligência de que dispõe, seria possível observar a fermentação na categoria. Além disso, não haveria muita dificuldade em prever a reação dos motoristas contra os seguidos aumentos no preço dos combustíveis, solapando-lhes o lucro.

Um movimento paredista nesse segmento tem o potencial de provocar estragos em qualquer governo, como aconteceu com a greve da categoria em 2005, que precedeu o impeachment da presidente Dilma Rousseff.
 

Com a inflação rodando em 3%, o óleo diesel e a gasolina tiveram aumento  em torno de 59%, desde que a Petrobras adotou a nova fórmula de reajustes, acompanhando a variação internacional do preço do petróleo, em julho do ano passado. Para contornar o problema, o governo tem pouca margem de manobra, pois não pode recuar na política de preços da Petrobras.
 

Além dos problemas advindos diretamente do movimento, Temer começa a  sofrer oposição de aliados, que preferem evitar qualquer gesto que possa levar à perda de votos, principalmente em véspera de eleição. O presidenciável Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara Federal, e Eunício Oliveira (MDB-CE), presidente do Senado, eximem-se do desgaste, atribuindo ao governo erros na condução da política de preços dos combustíveis.
 

Ambos procuram aparecer, agora, como solucionadores do problema, ao participarem de um acordo, com o ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, para reduzir os impostos incidentes sobre os combustíveis. Uma das propostas é zerar a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide), que representa 1% dos tributos aplicados sobre os combustíveis.
 

Além disso, a Petrobras, mesmo negando que a decisão tenha sido motivada pela greve, anunciou redução no preço do óleo diesel (-1,54%) e da gasolina (-2,8%) nas refinarias, a partir de hoje.
 

No entanto, essas medidas - que ainda vão demandar mais negociação - talvez reflitam pouco no preço final ao consumidor, mesmo porque os postos de combustíveis são rápidos para repassar aumentos e lerdos para reduzir o preço, quando este cai na refinaria. Assim, não se vislumbra desfecho rápido para essa crise, de repercussão extremamente negativa para o governo.

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