VERSÃO IMPRESSA

É fundamental que as opiniões resistam às agressões

01:30 | 11/05/2018

O exercício de opinar através dos meios de comunicação nos dias atuais há exigido muita coragem e alguma dose de loucura de quem continua se dispondo a fazê-lo. Uma outra alternativa que sobra àqueles que têm optado por enfrentar a insanidade predominante, ao estilo ‘tô nem aí’, é simplesmente ignorar o que cada texto publicado gera de comentários plenos de ódio, preconceitos e agressões, especialmente no território sem dono das redes sociais. Claro que não se está fazendo referência aqui às críticas, como ação natural e democrática, porque elas são sempre bem-vindas quando praticadas em nível civilizado, mesmo que em termos eventualmente duros, independente de ser de elogio ou reprovação.  

É importante que as opiniões manifestadas de boa fé continuem ocupando seu espaço no debate. Acontece que há diante de nós um quadro que tem exigido persistência para se manter vivo um espaço no qual seja possível à opinião pública realmente interessada nisso entender porque as coisas acontecem, diante de um momento tão turbulento, cheio de nuances, desvios e interesses no seu cotidiano. A sociedade diversa que existe hoje precisa estar expressa e presente à discussão através das manifestações de olhares múltiplos, considerado o conjunto de ideologias e de partidos existentes, seja contra ou a favor em qualquer tema colocado. Este é um sinal de saúde política que, por incapacidade ou omissão, não podemos deixar que se acabe transformando em doença.
 

Permanecer nos tais nichos, falando na base do nós com nós, eliminando ou reduzindo as possibilidades de absorção da visão do outro, terá como consequência a ampliação indesejada dos extremismos e uma limitação inconveniente do exercício participativo verdadeiro e produtivo. De outra parte, quem está no debate disposto a garantir sua qualificação e aceita abandoná-lo como gesto de derrota diante da força destruidora real e nefasta de quem se integra a ele apenas para constranger e atacar os contrários, estará, numa perspectiva diferente, também contribuindo para a construção de uma sociedade desajustada. Como vítima, é verdade, mas também passa a compor o conjunto das explicações possíveis a um processo doentio que exige cura. Mesmo que nebuloso e preocupante, o momento será passageiro e em alguma hora voltará aquela realidade na qual as diferenças existirão para permitir aproximação e não para alimentar distanciamentos ou promover brigas sem qualquer sentido nas suas razões motivadoras.
 

O que me faz escrever sobre o tema é a constatação de que há muita gente boa desistindo, justificadamente cansado de tanta pancada recebida. Lamento cada um dos que insiro nesta categoria de debatedores qualificados que vejo manifestar publicamente a disposição de abandonar o combate, uma parte boa deles com visão de mundo distinta da que professo, mas que conseguem provocar reflexões nos seus textos e opiniões, eventualmente até levando a mudanças no juízo que eu faça sobre este ou aquele ponto. Ou seja, não é de afinidades e de concordâncias que estou falando.

 

Guálter George
gualter@opovo.com.br
Jornalista do O POVO

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