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Assim caminha a autoridade

01:30 | 31/05/2018

Quando pequenos somos bem parecidos. Vamos testando limites e medindo até onde podemos ir. O campo de provas por vezes é em casa, mas, para martírio de inocentes transeuntes ou vizinhos de poltrona, acontece também nas ruas e no avião – aquele meio de transporte que não oferece a opção “descer na próxima”.


A psicóloga e articulista do O POVO Zenilce Bruno, com a marca do talento, explica melhor. O recém-nascido, dependente de pai, mãe ou responsável para tudo – da comida à limpeza do que ela vira – percebe que deve obedecer, pois é aquela pessoa que o deixa feliz. A gente obedece por medo ou por amor. Ante o medo de perder o amor daqueles que cuidam, melhor respeitar.
 

Mais tarde, quando a criança levanta da cadeirinha do pensamento – não, não se põe mais de joelho no milho – tem-se ali a representação da perda da autoridade. Não tem medo de perder o amor e tampouco teme o castigo. Os pais não têm moral.
 

Ao se tornar adolescente, passa a entender o que é bom ou ruim. Daí vem a imitação do adulto que se admira, por desejar ser parecido e ganhar admiração idem. Com a ausência dos bons exemplos, perde-se a referência. Ou pior, os pais passam a representar aquilo que não se quer. Há resistência e confronto.
 

Mal comparando, acontece algo semelhante diante dos nossos governantes. Péssimas influências que são, na média, representam o Mal. Acontece em empresas também. Seja o CEO ou chefe imediato. Não por acaso os coaches trabalham isso à exaustão nas corporações.
 

Ao analisar a catástrofe da semana, ontem, o presidente Temer falou como pai tolerante e fraco. Disse: “O diálogo é da própria essência da política e da democracia. É, aliás, sua fortaleza. Quando alguns rejeitam o diálogo e tentam parar o Brasil, exercemos a autoridade para preservar a ordem e os direitos da população, mas antes disso, um diálogo é fundamental, leve quanto tempo levar”.
 

Este é o ponto. Tal qual com a criança sem limite, há um marco a ser imposto. O “leve quanto tempo levar” custou alguns bilhões de reais para uma economia ainda trôpega. E pior: fez avançar a fronteira da desordem. Outras virão, como a ilegal paralisação dos petroleiros já veio.
 

O depoimento de um caminhoneiro liberado de um bloqueio pela Polícia Rodoviária Federal, ontem em Cascavel (PR), revelou que o tamanho da tragédia para o País poderia ter sido bem menor. “Estou desde segunda aqui. Eu agradeço, vocês são uns anjos de Deus, porque nós estávamos desesperados”. Era um dos que queria ter saído antes, mas foi impedido por hordas. Dez dias para a violência dos bloqueios ser contida.
 

A falta de autoridade, longe de ser monopólio do Governo Temer – ela está no comércio ilegal de rua, na obra que ocupa a calçada, na violência urbana ou no excesso de secretarias e mordomias -, explica a contradição dos brasileiros que declararam apoio à greve (87%, segundo o Datafolha), mas não suportam mais os transtornos e tampouco desejam pagar a conta da solução - embora vão.
 

As pessoas viram ali uma forma de descarregar a revolta com o peso do Estado. Uma montanha puxada por tração animal, sem contrapartidas devidas e sem nenhum indício de mudança. Assim não há autoridade.

 

Jocélio Leal
leal@opovo.com.br
Jornalista do O POVO

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