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A direita que teme olhar no espelho

01:30 | 03/05/2018

Existe algo que ouso considerar positivo em certa extrema direita brasileira: a coragem de se assumir de direita, ou seja, de se posicionarem ideologicamente, ainda que partícipes de uma perversa concepção de mundo. Digo isso em tom elogioso, porque há certa direita, aparentemente mais branda, mais bonita e menos estridente, que insiste em esconder-se ideologicamente, operando a política como se desinteressados fossem e como se não tivessem nenhuma visão de mundo a compartilhar. Eles têm medo (vergonha? Cinismo?) de assumirem suas posições ideológicas.


Considero essa direita, a que teme se olhar no espelho, à moda de Dorian Gray, muito mais nociva ao fazer político e à política. Em primeiro lugar porque escondem-se promovendo desideologização da política, ou seja, repetem, como mantra “Não sou de esquerda e nem de direita, mas luto pelo bem do povo”. Uma platitude. Afinal, aquilo que se toma por “bem” só tem sentido a partir de uma certa concepção de “bem” e de “mal” que é ideológica. Ainda que dotada destes ou daqueles aspectos técnicos, é a ideologia, como marco que sustenta a forma de olhar para o mundo, que está no cerne do conceito.
 

Ainda que a defesa de uma ou outra pauta seja importante, ainda que pessoalmente esta ou aquela pessoa sejam “ legais”, suas ações, no campo da política, não são individuais, ainda quando pensadas individualmente, fragmentadas e fracionadas se inserem numa perspectiva política, em uma forma de conceber a política.
 

Vivemos tempos de crise política, que se traduz em uma crise da democracia e das formas de organização e principalmente, em descrédito, redução da participação e descrença na capacidade da política de lidar com os problemas humanos, esconder que a participação política é ideológica (ainda que a ideologia dos omissos deliberados seja o canalhismo) é ser agente da despolitização do mundo e da desdemocratização da democracia.
 

Essas forças, medrosas, cínicas e despolitizantes são agentes da crise política que disfarçam sua podridão com boa educação, boas roupas e muito, mas muito verniz “técnico”.

 

Helena Vieira
helena.brilhante.vieira@gmail.com
Escritora e ativista

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