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A cruel arte de olhar para uma vítima e enxergar um algoz

01:30 | 04/05/2018

Há uma maneira rápida e simples de criar uma eficiente cortina de fumaça em debates como o que nasceu na madrugada do dia 1º de Maio, com o incêndio e posterior desabamento de um edifício abandonado de 24 andares no Centro de São Paulo — onde moravam várias famílias sem rumo e sem perspectivas. Basta dizer, de formas as mais diversas, nem todas apontando o dedo ostensivamente, que a culpa é delas, as vítimas, que não deveriam estar ali. É aquela velha história de que uma grande mentira, muitas vezes, está sustentada numa premissa que até tem seu fundo de verdade.  

Aquelas cento e tantas famílias, com muitas crianças e idosos em suas composições, não deveriam mesmo estar abrigando-se num prédio fadado a cair, dividindo condições sub-humanas entre elas, sob a mais absoluta miserabilidade. A pergunta, então, seria: por que estavam? Há algum nível de crueldade em se tentar alimentar a ideia, como muitos fizeram nos últimos dias, de que fosse uma opção delas (sobre)viver naquelas circunstâncias. 

 

Falamos, parece sempre necessário ressaltar isso, de gente à qual falta tudo, a começar por um lugar decente, minimamente salubre, onde pareça possível morar com dignidade.
 

O debate, então, se lança sobre os líderes das invasões, criminalizando-os por princípio. Há aproveitadores entre eles? É muito provável, como é comum que se encontre, vez em quando, a mesma esperteza entre grandes empresários, grandes políticos, grandes banqueiros, grandes isso e aquilo, sem que corramos a usar generalizações para colocar todo mundo no mesmo plano criminoso. Atitude correta e que deve ser exigida em todos os casos, inclusive neste que impõe às tais lideranças explicações que realmente convençam sobre a história do pedágio que seria cobrado de famílias, repita-se à exaustão, miseráveis.
 

Os valores anunciados, variáveis entre R$ 40 e R$ 400, conforme seja a notícia que se tenha lido, até parecem inexpressivos para um País onde qualquer gerente de Petrobras devolve US$ 100 milhões de recursos desviados dos cofres públicos no escândalo da hora sem derramar uma lágrima. Porém, à parte qualquer qualificação de cifras envolvidas, no sentido de torná-las mais ou menos importantes, fundamental mesmo é que os responsáveis expliquem, primeiro, se havia a tal cobrança. E, confirmando-a, que justifiquem cada centavo tirado de pessoas que não têm nada a oferecer. Nada no sentido literal da palavra.
 

Aberto e fechado o parêntese sobre fatos eventuais e verdadeiros de exploração do quadro dramático de falta de moradia, é ação inútil buscar dissociar uma situação que lança famílias às invasões e as entrega nas mãos de aproveitadores, em alguns casos, da grande e grave crise social que, esta sim, mantém o País no atraso. O direito à moradia é de todos no Brasil, à luz da Constituição, e é isso que a sociedade deve cobrar do Estado brasileiro. 

 

Desviar a conversa no rumo de inverter responsabilidades em momento de tanta tragédia exprime uma maldade injustificável com pessoas já suficientemente desprotegidas, sofridas e humilhadas na sua luta diária pela sobrevivência. Um quadro que diz muito do mundo que temos hoje.

 

Guálter George
gualter@opovo.com.br
Jornalista do O POVO

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