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Viver é melhor que sonhar!

01:30 | 25/04/2018

Nunca dei muita trela para esses livros de autoajuda. Até porque entre Augusto Cury e Zeca Pagodinho, prefiro “deixar a vida me levar”! Mas eis que, nessas viagens demoradas a pão e água, cai-me da mão ao lado O Poder do Agora, um best seller de Eckhart Tolle, professor da Universidade de Cambridge, recomendado pelo New York Times (e pela banca do Bodinho, Praça do Ferreira).
 

Cartões de crédito parecem usar os mesmos princípios de semiótica e sociologia destes livros. Por exemplo, o slogan “porque a vida é agora” é usado pela Visa para nos estimular, orçamento abaixo, a um consumo desenfreado de fazer corar qualquer cheque azul!
 

Reconheço que o professor Tolle me surpreendeu. Ao lê-lo, vi meu perfeccionismo virginiano (aquele que sofre ao ver um quadro torto na parede) cobrando erros do passado, a vaidade de beradeiro projetando o futuro. E o presente, cara pálida? Reclama Tolle em seu livro, um calhamaço desembestando página abaixo o mantra: nossa mente a nos ocupar com o sofrimento do passado e a angústia do futuro, escanteando o agora. “Se você está deprimido, tá no passado; está ansioso, tá no futuro; se está em paz, tá no momento presente”, ensina-nos também o filósofo chinês Lao Tzu.
 

Fiquei a me coçar como esta “filosofia do agora” poderia ajudar nossos jovens. Temos uma juventude muito estranha para alguns pais, trancada em seu mundo, como sinaliza a psicopedagoga Cassiana Tardivo em seu artigo Filhos do Quarto que viralizou nas redes sociais. Digo em Escola Pra Valer que o aluno nos percebe mais pelo que fazemos do que pelo que dizemos. No contexto de Tolle, seria o agora dando um “banho de cuia” no passado e no futuro.
 

Doutor Tolle, segundo Ricardo Lenz do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), não tem lá muito de original. Santo Agostinho, no século IV, já aludia ao tema com os desmantelados da fé: “O que fazia Deus antes de fazer o céu e a terra?”. Aos aposentados de espírito, dizia ele: “O mundo é um livro, e quem fica sentado em casa lê somente uma página” (ou na vibe do Raulzito: “nada de ficar com a boca escancarada, cheia de dentes esperando a morte chegar”).
 

Enquanto Tolle e Agostinho se entendem (passado), fico com nosso poeta renascentista do Mucuripe: “Viver (presente) é melhor que sonhar (futuro)!” E você?

 

Mauro Oliveira
amauroboliveira@gmail.com
Membro do Conselho O POVO de Educação

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