VERSÃO IMPRESSA

Sobre homens e Elena Ferrante

01:30 | 14/04/2018

Quando li o título da crítica publicada na revista Piauí “Os homens de Elena Ferrante” pensei que só seria possível entendê-la após ler toda a série Napolitana, algo que eu estava evitando há tempos.

Tenho preguiça de ver série, ler série, acompanhar novela, qualquer coisa que me obrigue a seguir um dia após o outro. No entanto, li toda a série em duas semanas, num ritmo meio louco entre 22h e 1 da manhã durante a semana e no fim de semana, seis horas em cada dia. Mesmo antes de concluir a série percebi que a crítica nem de longe ampliava a leitura dos romances, a partir de uma perspectiva dos personagens masculinos criados por Elena Ferrante.


A saga de meia dúzia de famílias moradoras de um bairro pobre de Nápoles, na Itália, contada desde a infância até a velhice tem na figura masculina uma espécie de campo de força capaz de mudar tudo em volta. Embora a narrativa tenha como personagens centrais duas vozes femininas, a forma como os homens assumem suas funções no romance é digna de nota. É claro que este texto não se propõe a esmiuçar cada coisa, mas alguns detalhes que mais me chamaram a atenção.


Em primeiro lugar, numa visão de futuro, os meninos de Nápoles não tinham nenhum porque os pais deles também não tinham tido. O filho do verdureiro agarrou-se ao carrinho de frutas e legumes assim que se desencantou da escola, o filho do sapateiro enfurnou-se numa velha sapataria. Os empregos de subsistência se transformavam na única condição de vida daqueles homens e era isso que passavam para os filhos. Em segundo lugar, há a violência que faz a mediação dos conflitos. Assim, qualquer discordância é motivo para bater nas mulheres, espancar os filhos, esmurrar vizinhos. Os filhos, por sua vez, recebem como herança o valor dos tapas e xingamentos como única possibilidade de convivência.


Tal como uma sociedade de incivilizados, os moradores de Nápoles fazem suas próprias leis à margem dos outros homens. Quando Elena Grecco consegue ir estudar em Pisa, um dos estranhamentos da universitária foi constatar que havia outro modo de resolver problemas sem gritos ou tabefes. O sangue quente dos homens de Nápoles parecia ser algo ligado à natureza do lugar. O cenário descrito como barulhento, sujo, apinhado de casebres e prédios feios e escuros moldavam meninos instáveis em homens sem nenhum traquejo que se distanciavam cada vez mais dos rapazes elegantes, cultos e educados que surgem ao longo da narrativa de quase 1.300 páginas.


Educação era vista como algo inalcançável para meninos e meninas.

Não à toa, do núcleo central de Nápoles, apenas um menino conseguiu ir para a faculdade. Ver a escola como algo que não valia a pena, quase como um sonho que não lhes pertencia era a regra. Havia respeito pelos professores e pelo conhecimento, mas nada que pudesse ser apropriado por eles.


Os paralelos entre esses dois mundos de homens são traçados pelos olhos de uma mulher, Lenu. É ela quem percebe as nuances que rondam esse habitat de machos ora irascíveis e brutos, ora educados. Os personagens de Elena Ferrante são tão humanos que saltam das páginas e se fazem nossos vizinhos nas suas crueldades, arrependimentos, paixões. Tudo o que uma literatura convincente precisa fazer.

 

Regina Ribeiro

reginah_ribeiro@yahoo.com.br

Jornalista do O POVO

GABRIELLE ZARANZA

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