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Que penso quando falo populismo

01:30 | 16/04/2018

Atualmente o termo populismo é usado para se referir ao discurso político que pretende mudar a situação de desespero e desamparo de setores sociais excluídos pela globalização. Na Europa, é identificado com discursos voltados para o protecionismo econômico e contra a imigração. Os movimentos são diversos, mas têm em comum os abalos provocados pela globalização nas sociedades nacionais. O encaixe deverá gerar ainda muita angústia e medo. Não é certo, mas tudo indica que também vivemos tempos populistas. O termo é empregado sempre em sentido negativo. Ele se expressa em forma extremista ou moderada, guardando sempre características semelhantes.

No Brasil, sua última aparição ocorreu na primeira experiência democrática, foi fenômeno histórico provocado pela emergência das massas urbanas na cena política. Seu desfecho culminou no colapso da democracia e 21 anos de regime autoritário. A forma plástica das instituições brasileiras incentiva esse tipo de aventura política.

O populismo político é o paraíso dos autoritários, inferno dos liberais e purgatório dos conservadores. Na história, o nazi-fascismo foi a expressão pura desse fenômeno; o terceiro-mundismo, forma moderada. Em geral, essa forma política simplifica a complexidade dos problemas sociais e econômicos, elege opositores como inimigos retóricos, dispensa as instituições construídas por décadas e tem líder carismático que fala diretamente ao coração das massas e seguidores convertidos. Acredita no Estado como agente ativo para resolução dos graves problemas. É versão danosa das ideias religiosas de redenção pela política. É a irresponsabilidade fiscal, o atendimento clientelista dos segmentos acoplados ao governo e formação de guardas pretorianas. É o voluntarista político, impulsionado por valores sinceros deixa atrás de si um rastro de miséria e desolação. É a emoção política em sua expressão mais bruta, forma arcaica latente de espiritualidade facilmente capturada pela política, pois não deixa de ser uma maneira de experienciar aquela mesma paixão de exaltação e comunhão de valores do bem e defensor de uma moral superior. O carisma do líder como meio de acesso ao poder não assegura garantia de governança. É preciso manter o militante e simpatizante sempre alertas e ativos para a qualquer instante intervir no processo político.

O populismo é um estilo político, menos uma teoria. Apoia-se numa concepção de como transformar a sociedade sem grandes abalos revolucionários. É forma juvenil de política, apoiada vibrantemente pela juventude, política da esperança ilusória. Apoia-se mais nos valores do que na racionalidade dos resultados. É uma rebelião sentimental em nome do povo contra as elites. É a divisão da sociedade entre “nós” e “eles”.

Quase sempre o populismo se manifesta como restaurador de um tempo glorioso da nação. A referência é o tempo passado. Feitos extraordinários, produzidos por efeitos conjunturais, do passado servem como bússola e guia para o presente. Ficamos presos no tempo presente. Momentos de transformação silenciosas são propícios para adventos populistas pelos estragos provocados nas vidas transformadas pela modernização. Representa fuga para o passado como estratégia de enfrentamento do futuro, são utopias regressivas. Colocando a política no centro da vida das pessoas, tende a promover o ideal de cidadão integral vinte e quatro horas por dia.

 

Valmir Lopes

lopes.valmir@gmail.com

Cientista político e professor da UFC