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O sono do dragão

01:30 | 16/04/2018

Depois de cuspir muito fogo em 2015 e 2016, o dragão inflacionário finalmente voltou a dormir em sono profundo no Brasil. E não temos pressa para que ele acorde. O brasileiro, cujo bolso foi fortemente impactado pela alta dos preços no ápice da crise econômica, estava precisando dessa trégua. O alívio começou ainda no ano passado e deverá continuar.

A renda do trabalhador está sendo menos corroída, mesmo com o vergonhoso reajuste de 1,81% no salário mínimo em 2018. Foi o menor em 24 anos, desde o Plano Real. Quem frequenta supermercado, o melhor termômetro da inflação, consegue perceber que o dinheiro está rendendo um pouco mais. Dá para abastecer melhor o carrinho.

Em geral, os alimentos ficaram mais baratos. Mesmo quando o preço de um ou outro item sobe, os reajustes não mais nos assustam, como ocorreu com os valores do feijão e do tomate nos últimos anos.

A mudança de cenário é boa. Aumenta a confiança do consumidor e beneficia a economia.

Em março, por exemplo, a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) só cresceu 0,09%, a menor variação para o mês desde o Plano Real. No primeiro trimestre deste ano, o índice ficou em 0,70%, também o nível mais baixo para o período, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A expectativa é que o índice de 2018 feche em 4,5%, com margem de tolerância de 1,5 ponto porcentual.

Tomara que o próximo Governo dê continuidade à atual política econômica, com foco no controle da inflação. O brasileiro não quer mais ir ao supermercado e ser obrigado a escolher uma mercadoria em detrimento de outra porque não pode comprar as duas. Ou precisar fazer “malabarismo” para substituir itens mais caros por mais baratos. Em 2016 e 2017, passamos por isso. A alta acumulada da inflação foi de quase 17% no biênio.

Há quem defenda que os preços caíram por conta da retração do consumo. Isso até ocorreu no primeiro trimestre do ano passado, quando o Brasil começou a sair da crise econômica. Mas essa análise não vale, ou pelo menos não pode ser usada sozinha, para o atual momento. Ainda que de forma cautelosa, as famílias voltaram a comprar. Aproveitam o sono do dragão.

 

Raone Saraiva

raonesaraiva@opovo.com.br

Editor de Economia