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O quanto vale um general insubordinado?

01:30 | 17/04/2018

De uns tempos para cá, cresce nas redes a idolatria política a certo general de quatro estrelas do Exército. Até então desconhecido por quase a totalidade da população, o oficial de alta patente rumou ao estrelato disparando duras críticas a presidentes da República – seus superiores diretos – e à política brasileira. Citando desordem, o dito cujo chegou até a defender o poder do Exército de intervir no Estado, tudo enquanto estava na ativa.

Curiosamente, o surto de popularidade começou nos últimos meses da carreira do general, que acabou “encostado” no início deste ano. Com isso, perdeu os benefícios e antigas regalias da ativa – gratificações de representação, adicionais diversos, direito a assessores e residência funcional – e caiu na vala comum da reserva. 

Em suma, o general deixou o Olimpo do alto escalão e começou a viver a realidade do militar brasileiro, que passa trinta anos se especializando, enfrentando rigorosas cargas horárias e sucessivas seleções para terminar a carreira sem grandes confortos. Na norma, a maioria deixa a ativa, mas segue trabalhando para garantir maior qualidade de vida para a família. Em alguns casos, passam a vida se preparando e qualificando para o “pós-pijamas”.  

Queimado por conta de suas críticas, o tal general não tem perspectiva de ganhar as clássicas alternativas de militares de patente graúda, como cargo no Superior Tribunal Militar, diretoria de estatais ligadas à Defesa, etc. Mas o oficial não é, de forma alguma, burro. Com certeza já deve ter reparado em certo capitão deputado, que estendeu à família inteira as regalias da vida de congressista só falando impropérios. E também sabe que seus disparates lhe rendem uma seita de seguidores fanáticos. 

Qualquer oficial do Exército possui opiniões sobre a conjuntura nacional. E todos eles sabem que, com a atual situação da arena política, muitos seriam facilmente eleitos para o Congresso explorando a força simbólica do cargo e o prestígio da instituição a qual estão filiados. Os bons oficiais, no entanto, não se manifestam porque é o que a lei e a hierarquia exigem. Quem bate palmas para oficial insubordinado, portanto, não bate palmas para o Exército. Valorizemos quem cumpre as normas.

 

Carlos Mazza carlosmazza@opovo.com.br Repórter do O POVO