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O nosso maior problema

01:30 | 23/04/2018

André Haguette

haguetteandre@gmail.com

Sociólogo e professor titular da UFC


Periodicamente, uma agência de comunicação financia uma pesquisa inquirindo do maior problema do Brasil. Invariavelmente,as respostas apontam: corrupção, desemprego, educação, saúde e violência. A ordem, no entanto, é variável de acordo com a situação do momento a chamar mais atenção e ser a mais noticiada nos meios de comunicação e nas redes sociais. No enquête desta semana, o problema declarado como sendo o mais grave foi a corrupção, o que não surpreende devido ao ambiente político e policial da Lava Jato. A corrupção superou o desemprego de uns 13 milhões de pessoas, já que a falta de desemprego se concentra nas classes mais carentes, em jovens e pessoas de menor escolaridade e que a percepção social das pessoas tende a se restringir a seu próprio meio social.


Corrupção, todavia, desemprego, educação, saúde insegurança são de fato o maior problema de nossa sociedade? Creio que não, embora concordo que sejam problemas gravíssimos que estão a corroer nosso tecido social e a impedir nosso desenvolvimento econômico e social. Se são gravíssimos, eles não descem à raiz de nossa estrutura econômico e social por serem mais consequências do que causa. Indo à raiz de nossos problemas, encontraremos uma profunda desigualdade entre os brasileiros, desigualdade visível em todas as atividades e em toda parte, mas que é pouco percebida e raramente incluída no rol de nossos problemas. Agora mesmo, salta aos olhos a desigualdade diante da Lei, na Justiça; enquanto alguns acusados e réus recebem horas de atenção de nossos altos tribunais para decidir seus recursos e habeas corpus repetitivos e protelatórios, centenas de milhares de indivíduos vivem encarcerados sem nunca ter sido julgados e apodrecem em prisões pestilentas. A desigualdade social está aí, na frente de nosso nariz, e não a enxergamos como problema e ainda mesmo como nosso grande problema. Por quê?


Se, a exemplo de outros países, como Canadá, Portugal, Espanha, França e outros, houvesse maior igualdade entre nós, a qualidade de nossa educação seria espalhada entre todas classes sociais; a saúde da grande maioria receberia uma melhoria relevante; a violência da rua atingiria um nível civilizado; a corrupção perpetrada por nossas “educadas autoridades” econômicas e políticas - de onde se vê que educação, por si só, não resolve nossos problemas - seria vigiada e punida; nossas leis seriam outras. Evidentemente, uma maior igualdade passa por muito menos desemprego, empregos melhor remunerados, um sistema tributário progressivo, etc.


Vê-se, portanto, o quanto a desigualdade é nosso maior problema que quase ninguém menciona e seque vê. Fico pasmo quando brasileiros de classes médias altas visitam o Canadá ou o Portugal, neles gostariam ou pretendem viver, e não mencionam a invejável igualdade desses países como causa da paz e segurança aí encontradas.


Estamos há séculos mergulhados na desigualdade e não a enxergamos nem sequer como problema, ainda menos como nosso problema número um e permanente, que está a maltratar a todos, incluídos e excluídos, abastados e “precariados”. O óbvio parece invisível aos nossos olhos, o que impede a nossa civilidade e provoca nossa insegurança e nosso desejo de fuga do país.

 

GABRIELLE ZARANZA

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