VERSÃO IMPRESSA

Eu acredito é na rapaziada

01:30 | 05/04/2018


Imagine o que estavam a fazer na tarde de ontem milhões de brasileiros micros, pequenos, médios e grandes empresários do Caburaí (sim, o Oiapoque já era) ao Chuí? Posso arriscar que quase todos estavam a trabalhar. Miremos nos menores. Barriga no balcão ou no fogão, dedos nos teclados, cabeça ao sol, pé na areia ou na tábua.


Quem pôde, assistindo ou só ouvindo o Supremo decidir se um condenado em duas instâncias deveria ou não ser recolhido a uma cela. Não, não puderam cerrar as portas, liberar o pessoal e se concentrar no julgamento. Na verdade, ainda que tenha sido o assunto do dia também para eles, o Pleno não chegou a ser a razão principal pela qual levantaram logo cedo.
 

Os donos de restaurantes, por exemplo, foram às compras ao amanhecer. Sabem que as melhores frutas e verduras só há se madrugarem. A carne mais macia e o peixe mais fresco idem. Soube de um no Cumbuco um tanto mais feliz. Depois das compras foi surfar (com a chuva o mar fica lisinho). Faz isto como rotina. Só então prepara a Casa para abri-la - apenas das 18 às 22 horas. Dizem que um lugar ótimo, com poucas mesas e muito concorrido. Curioso para conhecer.
 

O restauranteur-surfista é um caso raro. Quase sempre a luta não tem refresco. São rounds sem tempo técnico. Já dizia Luiz Gonzaga Júnior, é rapaziada que segue em frente, segura o rojão. É moçada que não foge da fera, que não corre da raia e enfrenta o Leão (ou o Vozão...).
 

Formam um contingente imenso de pessoas que trabalham de modo alucinado para manter seus negócios abertos e azuis. Gente que precisa labutar muito para cobrir os custos fixos, honrar a folha de pagamento e a vasta lista de impostos e contribuições, mesmo não tendo a justa contrapartida. Fossem estatais, faria muito sentido chamar de despesas correntes. Elas prendem e são pesadas para arrastar.
 

Feito tudo isso, em seguida vão cascavilhar lucro, com o cuidado de não o confundirem com faturamento - erro clássico e mortífero. Sobre contrapartidas, necessitam pagar segurança privada, com guarda e uma série de equipamentos eletrônicos. Seja nas áreas ditas nobres (embora haja nobreza no subúrbio) ou na periferia.
 

Para eles, tudo aquilo que sufoca as grandes empresas lhes toma mais oxigênio. Por exemplo, a legislação trabalhista, embora modernizada ante regras anacrônicas e operada por uma não menos intricada máquina estatal – com direito a órgãos de fiscalização, Ministério Público do Trabalho e Justiça Trabalhista – com tribunais regionais e uma Corte Suprema (TST). Caríssimo de manter.
 

Ademais, são quem mais geram emprego. No Ceará, são 400 mil no Simples Nacional. Destas, 98% são MEI. Contribuem com 48% dos empregos formais e impactam em 27% no PIB do Estado. Dados do Sebrae-CE. Sem entrar no mérito, esta semana, tiveram uma vitória importante com a derrubada do veto ao Refis do Simples.
 

Eles não têm outra opção. É trabalhar ou sucumbir. Por tudo isto, soa-lhes ainda mais repulsivo se deparar com páginas infelizes do noticiário sobre tenebrosas transações. Seja nos milhões de petrodólares descobertos na Suíça, seja no triplex do Guarujá ou no pedalinho de Atibaia.
 

Em larga medida, não há ideologia clara a mover a repulsa. Uma rejeição até imoderada, a atingir o desatino, quando admitem um golpe militar.
 

Em suma, esta gente que insiste em abrir um negócio e toca a economia do País quer justiça. E eles são maioria.

 

Jocélio Leal
[email protected]
Jornalista do O POVO

TAGS