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Editorial. O desafio de vencer a insegurança pública

01:30 | 23/04/2018

Fortaleza apresenta um quadro inegável de crise na área de segurança pública. Facilita muito o desenvolvimento de um plano de combate à situação, como primeiro passo, aceitar a realidade atual como dramática e que forma um cenário desafiador, da mesma forma que plenamente alterável, até num espaço curto de tempo, desde que melhoremos o nível de envolvimento da sociedade com a busca das melhores respostas. A edição do O POVO de ontem, em reportagem assinada por Carlos Mazza, nos oferece um excelente retrato de como outras cidades e países souberam encontrar saídas para ambientes de grande perturbação social que enfrentaram no passado.


O material nos mostra as experiências exitosas de três cidades - Medellín, na Colômbia, Ciudad Juarez, no México, e Nova York, nos Estados Unidos. O ponto comum, e a grande lição que podemos extrair para adequação à nossa realidade, é o entendimento de que o reforço das estruturas de polícia ou uma atuação mais forte no âmbito judicial fazem parte da solução, mas não se bastam como tal. Às vezes mais importantes, até, são as ações com foco na cidadania, coisas simples, algumas delas, e que não costumam exigir grandes investimentos ou projetos mirabolantes para se mostrarem eficazes.


Intervenções urbanas simples, como a opção por obras viárias em áreas carentes da cidade que incentivassem o uso de bicicletas como meios de transporte ou que abrissem espaço ao saudável hábito de ocupação das calçadas pela população, como se deu na colombiana Medellín, é um exemplo marcante de solução simplificada e efetiva. Claro que à primeira vista não se consegue um vínculo objetivo entre as realidades, o que dificulta a adoção do caminho pelo aspecto político e torna ainda mais necessária a compreensão da própria comunidade acerca da importância de se colocar em discussão um modelo que baseia a segurança apenas no reforço do aparelho estatal de repressão ao crime e aos criminosos.


Claro que todos os exemplos abordados e detalhados apresentaram ações também no campo da polícia e da justiça. É indispensável. Fortaleza não sairá de sua terrível e amedrontadora realidade de agora, com mais de 1.068 homicídios registrados apenas nos dados consolidados de seus primeiros dois meses e meio do ano de 2018, negligenciando sua política de segurança pública a partir dos instrumentos de que dispõe o Estado. Os exemplos abordados pelo O POVO mostram, no entanto, que é preciso ir muito além deste campo e envolver mais os moradores de todas as áreas em intervenções que recuperem a cidadania e devolvam à cidade um ambiente histórico de urbanidade e delicadeza.

 

GABRIELLE ZARANZA

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