VERSÃO IMPRESSA

Editorial. Liberdade de imprensa sob ataque

01:30 | 09/04/2018

Poucas vezes em sua história, o Brasil precisou tanto como agora de uma sociedade equilibrada, considerando-se desde o cidadão mais humilde à sua autoridade de maior responsabilidade pública. É traumático, em qualquer situação, assistir-se ao encarceramento de um ex-presidente da República, especialmente quando se trata de alguém dotado do peso social de Luiz Inácio Lula da Silva.
 

Mas, independentemente de como se observe a condenação de Lula e sua prisão efetivada antes de ontem, o compromisso coletivo precisa ser de preservação da democracia e da paz social. Por isso, é necessário repudiar com veemência os ataques e ameaças a várias equipes de jornalistas e às próprias empresas de comunicação, por alguns militantes de esquerda, durante as manifestações que se seguiram à notícia da decretação da prisão do ex-presidente.
 

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) contabilizou pelo menos sete casos de hostilidade e agressões a profissionais de imprensa em São Bernardo do Campo apenas no sábado. Alguns episódios só não resultaram em situações mais graves porque os profissionais foram protegidos por parlamentares da própria esquerda.
 

Ainda no domingo, em Fortaleza, a sede da TV Verdes Mares foi atacada. Teve as portas de vidro quebradas e os muros, pichados. No sábado, pelo menos três outros ataques a jornalistas já haviam sido registrados.
 

As investidas contra a imprensa vêm aumentando e não seguem coloração ideológica. Ainda segundo a Abraji, em 2017, uma das principais fontes de hostilidade aos profissionais da comunicação foi justamente o Movimento Brasil Livre (MBL), de orientação à direita.
 

É injustificável que jornalistas e empresas do setor estejam sob ameaça simplesmente porque adotam linhas editoriais que não satisfazem objetivos de quem contra eles se insurge. Agradar este ou aquele nunca pode ser o caminho correto para o jornalismo, sempre melhor praticado quando desvinculado das paixões e dos interesses.
 

Claro que essa característica do trabalho jornalístico não o torna imune às críticas quando erra, mas os preocupantes exemplos recentes indicam muito mais do que apenas uma atitude crítica com a cobertura.

A aposta na intimidação para fazer calar o pensamento divergente é resultado de um momento profundamente doente pelo qual o País passa. Um em que os valores democráticos parecem ser constantemente relativizados e postos a teste. Sabemos bem para onde esse caminho pode nos levar.

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