VERSÃO IMPRESSA

Convertido por um filme

01:30 | 18/04/2018

Apesar da sala vazia, quase todas as poltronas estavam vendidas. Não só as daquela sessão, naquele dia. Segundo o atendente, todas as exibições até o fim da semana estavam com ingressos praticamente esgotados. Não há dúvidas de que as lotações fantasmas colocarão Nada a perder em posição confortável no ranking de filmes mais vistos no Brasil em 2018. 


Mas vamos combinar, assistir à adaptação para o cinema da história do bispo Edir Macedo constitui prazer raro, ponto alto das tardes livres de minhas férias que caminham para o fim. Edir, o garotinho que despencou de uma árvore e ouviu da mãe que seu destino era subir montanhas. Edir, que se espremeu entre ônibus em uma manobra arriscada para mostrar que agia sob a proteção divina. Edir, que enfrentou o complô funesto de católicos e políticos, que exorcizou espíritos, que conviveu com presos, que tomou cafezinhos com Silvio Santos.
 

O mesmo bispo Edir que surge ao final da projeção, antes dos créditos, caminhando tranquilo por um parque iluminado. Agora não o ator, mas o próprio homem, carne da carne. Encara a câmera, me encara. Sacode um lencinho ungido, bordado com uma mensagem capaz de curar os piores males. Basta acreditar. Aos que acreditam, ainda oferece uma prece, nosso contato interrompido por seus olhos fechados. O cinema como seu Templo de Salomão.
 

Saio da sessão parcialmente convertido. Não pela oração febril dos minutos finais, não pela atuação canastrona do protagonista ou por sua resiliência estética nos dias de fossa - a sequência do bispo lendo a Bíblia atrás das grades é no mínimo exótica. Me rendo, sim, à engenhosidade de sua autopromoção, capaz de alimentar uma idolatria sem precedentes em nossa história recente, de atropelar as denúncias por lavagem de dinheiro, de transformar homem em mito. Edir, te entreguei meu tempo. Faça o que quiser com ele.

 

Jáder Santana
jader.santana@opovo.com.br
Editor do O POVO

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