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As fortalezas de Fortaleza

01:30 | 14/04/2018

Ao que tudo indica, o nome de Fortaleza continua fazendo jus à construção das suas fortalezas, fruto dos processos históricos e contemporâneos de uma urbanização desigual e contraditória, potencializada mais recentemente pela estetização da violência. Uma das expressões mais visíveis desses novos “enclaves fortificados” são as barreiras criadas entre o espaço público e o privado, dificultando o exercício da urbanidade, da civilidade e da democracia, que só é possível se estabelecer na interseção dessas duas esferas.


Guaritas, muros, grades, cercas, portões, câmeras, sistemas eletrônicos, todos estes aparatos sustentam a economia do medo, como se ele pudesse ser contido pelos muros, quando o próprio medo é uma fronteira, confirma Lenine: “O medo é uma linha que separa o mundo”.


Nas áreas de uso coletivo, cada vez mais privadas, os acessos e a diversidade são controlados mediante formas de comportamento, conduta e domínio dos corpos ou, no limite, por meio do poder aquisitivo e do pagamento de ingresso.


A diversidade e até mesmo o desejável estranhamento que o público expressa e dá suporte são subtraídos pela reprodução intramuros do próprio espaço público (praças, jardins, parquinhos, passeios e vias), se alastrando em distintas tipologias arquitetônicas da metrópole: do condomínio horizontal ao vertical, dos complexos híbridos aos shoppings, dos empreendimentos turístico-imobiliários às barracas de praia e parques temáticos, numa tendência crescente de naturalização da privatização do espaço público e, como consequência a sua decadência.


Igualmente graves são as fortalezas invisíveis edificadas pelo preconceito e pela intolerância, pela ausência de alteridade, que cegam e aniquilam as possibilidades de diálogo e exercício da liberdade e da política na polis, que não por acaso significa cidade, quer dizer, aglomerado de pessoas livres. Assim, os arquitetos e urbanistas possuem um papel relevante, por meio do projeto e da reflexão crítica no sentido de desconstruir tantas barreiras socioespaciais. Adverte-se que esta é a nossa (F)fortaleza. Qual a sua?

 

Ricardo Alexandre Paiva

paiva_ricardo@yahoo.com.br

Arquiteto e urbanista

GABRIELLE ZARANZA

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