VERSÃO IMPRESSA

Acreditar

01:30 | 23/04/2018

Sofia Lerche Vieira

sofialerche@gmail.com

Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e Pesquisadora do CNPq


Semana passada, do alto de seus 96 anos, partiu Dona Ivone Lara. Rainha da Escola de Samba Império Serrano. Enfermeira e assistente social de profissão e sambista de coração. Deixou registros memoráveis de dias que se foram. Quantas gerações não se lembram de músicas como “Acreditar”, “Sonho meu” e “Alguém me avisou”? Amores perdidos e desejos vãos, embalados em poesia de pura sensibilidade.


Seus versos soam ainda mais delicados em um cotidiano tomado por assaltos, mortes violentas e incertezas. Expressam um Brasil de gentileza que vai se perdendo.As imagens da serena alegria de Dona Ivone Lara no palco e na vida evocam nostalgia de momentos que se foram. Pouco fáceis os tempos que correm.


A política vai mal. A economia não acompanha o ritmo do desenvolvimento de um mundo cada vez mais acelerado. Embora alguns exercícios de reflexão sobre o futuro indiquem que o Brasil voltará a crescer, corremos sério risco de sermos tomados pela descrença.


O tempo há de dizer se as expectativas das projeções irão se materializar. Imaginar que em 2050 a China será o país mais rico do mundo não parece impossível. Mais difícil é pensar que, então, o Brasil estará à frente da Alemanha e do Reino Unido e atrás da Índia e da Indonésia.


Olhando a partir do agora, temos muito a aprender com o outro lado do planeta. Tanto aqui como lá, o investimento em educação deve impulsionar o desenvolvimento de uma economia cada vez mais centrada no conhecimento, onde a maioria das profissões de hoje não mais existirá.


Em um mundo onde as fronteiras se encurtam e novos desenhos de cidadania global se impõem, há que se aprender com a energia pulsante dos países da Ásia. Educação de qualidade para todos requer foco nas questões essenciais do ensino-aprendizagem, assim como na formação e dignidade da profissão docente.


Sem esquecer, claro, valores simples como a delicadeza ensinada pela poesia de Dona Ivone Lara. Senão, melhor repetir com ela: “Acreditar, eu não”.

GABRIELLE ZARANZA

TAGS