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Sapiência como saída

01:30 | 28/03/2018

Pensei em gastar estas palavras falando do fiasco que é a série O Mecanismo, do cineasta José Padilha, um desserviço do ponto de vista político (além de sofrível como narrativa fílmica). Também quis rascunhar um texto sobre a vergonha que foi a postagem da cantora Anitta a respeito da morte da vereadora Marielle Franco (Psol-RJ). Desisti. É que os dias andam tão cabulosos que achei melhor falar do Brasil que dá certo. E, tendo como recorte o meio artístico, nada me contempla mais do que um nome: Rincon Sapiência. 

O rapper paulista é o extremo oposto da alienação mascarada de isenção do diretor de Tropa de Elite e em nada se aproxima do discurso pouco trabalhado da Malandra. Rincon fala do Brasil de hoje com uma clareza absurda. O verso livre do artista parte da valorização da cultura afro-brasileira ancestral e, no naipe Pantera Negra, acerta em cheio em questões sociais do hoje. 

Pelas rimas dele passam a situação política do País (“Batemos tambores, eles panelas”), debates sobre apropriação cultural (“Sei que tem gente que odeia índio e na hora da folia usa cocar”), exaltação do orgulho negro (“Faço questão de botar no meu texto que pretas e pretos estão se amando”). Rincon é objetivo nos temas que quer tratar. É assim com mobilidade urbana na música A volta pra casa e sobre desigualdade social em Ostentação à pobreza. 

Não por acaso, o compositor é um dos mais requisitados para parceiras no meio artístico atual (“Acolhido, eu sou escolhido, é bem diferente desse presidente”). Alice Caymmi (sim, a neta do Dorival) gravou com ele a música Inimigos. Iza, do hit Pesadão, lançou Ginga. Ele tem ainda colaborações recentes com Karol Conka, Rael, Drik Barbosa e Rubel. 

Pra nossa sorte, o artista já tem show marcado em Fortaleza em abril. O rapper, que acaba de se apresentar no palco principal do Lollapalooza Brasil, é uma das atrações confirmadas da Maloca Dragão (festival que costuma ter line-up antenado com as melhores novidades nacionais). Sei que está realmente difícil, em diferentes frentes, se animar com o Brasil de hoje, mas a ascensão do “criolo de saia, que na crise deu uma rasteira” até que dá esperanças.

 

Renato Abê orenatoabe@gmail.com Jornalista do O POVO