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Livro não é para ser rebolado no mato

01:30 | 24/03/2018

Era adolescente quando dei com Jerônimo e Piedade e a crueza de suas vidas vividas no cortiço. Quatro décadas depois, nos reencontramos. Não como gostaria, numa poltrona confortável de casa entre amigos, mas no lixo. Para ser mais exata, num Ecoponto, que é lá onde se rebolam coisas sem serventia. Melhor que no mato. Ainda assim, que agonia vê-los ali.


Tão desimportante como a embalagem agora inservível do leite derramado, sob um sol escaldante amarelecia O Cortiço, de Aluísio Azevedo, um dos livros-chave para conhecer a literatura brasileira. Junto a este, um Ernest Hemingway, um outro com o pensamento de Picasso, mais um a respeito de Édouard Schuré e, ah!, um exemplar da coleção Literatura Comentada - Guimarães Rosa. Catei-os da bocarra que os levaria de volta ao começo e depois a lugar nenhum, talvez.
 

Desde então, penso em quanto tempo pode durar um livro. E em quantos podem ler o mesmo livro até que suas páginas quebradiças e desmembradas o condenem a não mais se prestar ao que veio. É sabido, se de bom papel, duram pra mais de século. Ouvi dizer, numa biblioteca, suportam até 35 empréstimos. Aliás, livros impressos têm resistido aos e-books, aos maus presságios dos que decretaram sua morte certa para um tempo que não veio. Até agora.
 

A mais recente pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, feita pelo Instituto Pró-Livro em 2016, indica que metade dos entrevistados têm o empréstimo como principal meio de acesso a livros. É isso, pois, emprestemos! Alguns, sem indicação de que precisam voltar. Reparou? O compartilhamento ganha espaço em pontos como cafeterias, shoppings e universidades. Hoje mesmo, enquanto você lê este texto, os títulos que resgatei serão doados para o projeto Livros Livres, da Universidade Federal do Ceará.
 

Antes da reciclagem, há possibilidades incluindo um destino mais sustentável. No bairro Cidade 2000, por exemplo, é possível encontrar ações como a Casa de Livros, casulo onde se pode deixar exemplares para serem pegos por quem quiser. Lá, uma banca de revistas promovia “troca de romances”. Não vingou. Eventualmente, entre acarajés e pastéis, dá para “esquecer” livros nos poucos bancos da Praça Central. Quem sabe um dia vai brotar poesia entre alamedas.

 

Maisa Vasconcelos
maisavasconcelos@gmail.com
Jornalista do O POVO

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