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Herança, não criação

01:30 | 01/03/2018


Ao passar por Fortaleza na sexta-feira passada, o ministro da Fazenda e pré-candidato à Presidência Henrique Meirelles gerou muita ironia, resmungos e até agressões verbais por escrito e à distância (no recôndito da web) por conta de uma fala: “Em primeiro lugar, o mais importante é que nós tiramos o Brasil da maior crise da história. O Brasil teve uma queda de produto de 8%, o maior desemprego da história e agora já está crescendo forte. Deve crescer 3% este ano, cresceu já o ano passado e esperamos criar 2,5 milhões de empregos. Então, essa é a conquista mais concreta da gestão”.


As reações naturalmente se explicam pelo ritmo com o qual as coisas estão melhorando e também pela profissão de fé da oposição contra tudo o que vier do Governo Temer – seja o que for. Embutida nas reações há muita desonestidade pairando no ar. Ela repousa sobre os narizes torcidos do debate de mesa de bar, redes sociais e artigos de jornal. Por vezes, tudo a mesma coisa.
 

Mas o fato é que Meirelles não mentiu. Pode ter sido no máximo generoso na autoavaliação, afinal de contas é sabido que há um conjunto de variáveis a serem consideradas. Uma delas é o desemprego e a taxa voltou a subir no período novembro-janeiro, de 11,8% a 12,2%.
 

Em termos técnicos, o Brasil já saiu da recessão no ano passado, quando em junho voltou a registrar uma alta no PIB após oito quedas consecutivas. Oito. 

 

A desonestidade intelectual de quem desconhece o feito remete a uma temporada noutro sistema solar.
 

A propósito, imagina-se o que irá ensinar nosso valoroso curso de História da UFC, que a exemplo da UnB ofertará conteúdo sobre o “Golpe de 2016”. Uma disciplina terá como tema central o “Golpe de 2016 e o Futuro da Democracia”. Decerto, ministrada por quem fala corretamente “Impeachment de Collor”, e não Golpe.
 

A cartilha do discurso da oposição faz crer no começo da crise econômica já na Era Temer. Sabemos que não é verdade. Nos idos de 2015, João Luiz Mascolo, professor de economia do MBA do Insper, apontava o erro de Dilma ao não compreender que a taxa de crescimento sustentada, ou seja, capaz de ser mantida por anos seguidos, era de cerca de 2% anuais. Dilma mirava em 7,5% como se fossem ad eternum.
 

Ignorou o elementar. Um crescimento muito alto provavelmente implicaria anos seguintes mais contidos. Dizia respeito ao estelionato eleitoral que a elegeu. Um conjunto de medidas excitantes para a economia lançadas por Lula capazes de eleger até...Dilma.
 

A história da crise inclui ainda elementos como a desordem das contas públicas, graças a uma série de projetos super simpáticos, mas de pouco retorno para o contribuinte. Um exemplo? Alguém consegue descrever qual o imenso salto para a pesquisa brasileira como fruto do envio de um contingente estupendo de estudantes ao Exterior em intercâmbio acadêmico? Super divertido para quem foi, mas ciência sem fronteiras e sem retorno.
 

Ok, a lista de problemas estruturais era anterior. Passa por infraestrutura precária, mas não foi mesmo só isso. Uma porção de desastres para além da principal razão alegada pelo Dilma Team, a queda no preço das commodities (matérias-primas).
 

A insistência no maniqueísmo não ajuda a discutir quais os programas oficiais a merecer a atenção, sobretudo, na área social, bem como quais os privilégios a serem eliminados. E estes são muitos. Estão no colo de funcionários públicos, estados desajustados e também de empresas.

 

Jocélio Leal
leal@opovo.com.br
Jornalista do O POVO 

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