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Eu e você somos o produto

01:30 | 24/03/2018

Tudo indica que Bran Acton, criador do WhatsApp, atualizou a famosa frase “Não existe almoço grátis”, atribuída ao Prêmio Nobel de Economia de 1976, o norte-americano Milton Friedman. Digo atribuída porque a sentença vaga pela boca dos nova-iorquinos desde o fim do século XIX, quando um restaurante popular inventou um almoço grátis, mas era obrigatório o consumo de bebidas. Nas primeiras décadas do século XX, a máxima ganhou força para significar que, no sistema capitalista, qualquer coisa aparentemente gratuita exige algo em troca. Pois bem, o “não existe almoço grátis” encontrou um par quase perfeito.  

“Quando te oferecem algo gratuito, você é o produto”. Bran Acton se referia  ao excesso de generosidade em torno do Facebook, a plataforma com ares de nona maravilha do mundo que mantém 2,3 bilhões de pessoas (?) conectadas. Desde que Acton criou sua máxima – há cerca de uns cinco anos – até hoje, o Facebook mudou muito e a forma de se relacionar com ele anda bem alterada.
 

Embora tenha um perfil na plataforma com fins estritamente profissionais para ter acesso às redes da empresa para a qual trabalho, sempre considerei que a minha vida íntima não interessa a quem quer que seja. O que eu faço ou deixo de fazer é minha reserva pessoal. Também jamais bisbilhotei ninguém pelo Facebook. Raramente respondo algo e isso já me causou um ou outro constrangimento porque nem todo mundo entende uma decisão assim. Ouvi inúmeras vezes: “Regina em qual planeta você está?”.
 

Verdade que eu até tentei pelo menos não ser tão antipática virtualmente, mas todas as vezes que eu tomei a decisão de encarar a rede, desisti depois de me perguntar: Por que faria isso? Só por pressão? Apenas porque todo mundo faz? Incluindo meus filhos e meu marido? Mas a decisão final se deu na última eleição para presidente. Acompanhei, com minha família, posts com comentários de pessoas bem próximas que me deixaram assustada. E aí me perguntei: Quero mesmo estar neste lugar? Como vou agir diante de tanta idiotice? Tanta bobagem, tanto escracho? Não. Definitivamente não vou perder meu tempo. Em casa, aos poucos, todos os meus filhos deixaram a rede de forma espontânea e em tempos bem distintos, nos últimos cinco anos.
 

Em setembro do ano passado, li o ensaio “Você é o produto. Mark Zuckerberg e a colonização das redes pelo Facebook”, do jornalista alemão John Lanchester, que de alguma forma antecipava os escândalos que sacodem a rede atualmente. Toda a estratégia – ou a falta dela – que impulsionava os negócios do Facebook foi dissecada pelo jornalista. O maior erro de Zuckerberg, diz Lanchester, “foi apontar apenas para o dinheiro”, sem nenhum controle sobre as informações e a vida das pessoas expostas pela plataforma. Afirmou ainda que a empresa manipulava dados dos usuários para fins comerciais e que não havia nenhuma ferramenta de controle sobre perfis ou notícias falsos. Isso foi comprovado nas eleições norte-americanas em 2016 e agora, diante do novo escândalo, na votação do Brexit. Menos de um ano depois de ler o artigo, o próprio criador da rede vem a público confirmar o que já era sabido e sempre negado com ênfase. Zuckerberg, enfim, afirmou: “Nós erramos”. Mas isso pode ser muito pouco para quem transformou 2,3 bilhões de pessoas em produto.

 

Regina Ribeiro
reginah_ribeiro@yahoo.com.br
Jornalista do O POVO 

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