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Editorial. Olhos voltados para o céu

01:30 | 19/03/2018

O Dia de São José concentra fé e ciência. Padroeiro do Ceará, o santo representa esperança nas chuvas e desejo de que a secura da terra arrefece. O 19 de março, porém, vai além da religiosidade, fixando um marco a partir do qual o nativo traça o seu prognóstico: havendo precipitação hoje, o inverno será de fartura. Em caso de sol, a estiagem se confirma. É um limiar para a cearensidade. Dia de preces ao milagreiro e olhos firmes no céu.


José foi homem simples. Carpinteiro, encontrava formas talhando na madeira. Lutava com a escassez, fazia do pouco a matéria do sustento da família. A narrativa pessoal do santo guarda estreito paralelo com o próprio povo cearense: gente tangida pela falta d’água de tempos em tempos, a pele curtida pelas intempéries, marcada por um nomadismo que é também sua força, habituada desde a sua formação a arribar quando a precisão bate à porta.


E ela costuma bater com frequência, seja porque a água falta, seja porque a lei do homem é incapaz de fazer justiça plenamente – a carência hídrica não é fruto de uma natureza arbitrária que semeia fome e sede ao gosto de uma divindade punitiva.

 

A despeito dos esforços dos governos, ela é sobretudo reflexo de outras desigualdades, todas relacionadas ao modo pelo qual os gestores operam a divisão de nossas riquezas. Nesse sentido, o sertanejo de hoje ainda é aquele decalcado nas Vidas secas de Graciliano Ramos.


Feito o Fabiano, personagem fictício esboçado pelo escritor das Alagoas, esse bicho-homem é forte. Todo ano, ergue-se à espera das chuvas. Mantém a fé em José. Não descuida da lavoura. E continua a aguardar a chegada das águas. Daí a importância do 19 de março. É dia derradeiro para quem vem de seis anos seguidos de seca. Uma peleja narrada em palavras e imagens nas páginas do O POVO. É hora de renovar expectativas e se preparar para o que vier.

 

E o que virá? O Estado nunca careceu tanto de precipitações. Aos 15 dias de março, a média estava 77% abaixo do esperado para o mês. No Interior, o acumulado está distribuído de forma irregular, fazendo o volume de açudes avançar muito pouco. Aguardadas há tanto tempo, as obras da transposição ainda levam tempo. Quem passa sede tem urgência. Quem pede água tem necessidade de agora.

 

Sob o papado de Francisco e debaixo da vista de São José, o cearense se volta ao 19 de março como quem se prepara para receber uma visita desde muito esperada. Que essa espera não se estenda por mais um ano. Que as ações conduzidas pela mão dos governos não tardem ainda mais. Que todas as súplicas sejam ouvidas.

 

GABRIELLE ZARANZA

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