VERSÃO IMPRESSA

Dialética da Destruição

01:30 | 19/03/2018

Das ideias visionárias de José Bonifácio até a vitoriosa campanha abolicionista de Joaquim Nabuco, a sociedade brasileira conviveu com a escravidão como principal problema por sete décadas, sem resolução satisfatória. Resolvemos o problema, sem solucioná-lo. Ainda no mesmo século, havia a constatação que o Brasil começou sua formação pelo alto, com a criação de instituições sem atenção às bases morais da sociedade.


Os conflitos existentes na sociedade brasileira dos últimos anos podem ser explicados como parte de uma movimentação de encaixe no ciclo maior de formação de uma sociedade mundial globalizada. Traduzir esses conflitos em linguagem de classes sociais, capitalismo parece cada vez mais inadequados. Trata-se de uma transformação mais profunda promovida pelo avanço tecnológico dos últimos anos. A aceleração das coisas está provocando um impacto tremendo sobre o modo de vida e modo como nós compreendemos o mundo e agimos. O ritmo de inovações age de forma tão intenso, impedindo qualquer adaptação. Destruição, sem criação duradoura. As mudanças são cada vez mais iniciadas, dispersas e concentradas em escala micro, acumuladas de forma imperceptível até seu surgimento em grandes eventos. Já se alertou para a crescente fragmentação da sociedade brasileira, indicando que as instituições outrora responsáveis pela coordenação e aglutinação de interesses coletivos perderam sua eficácia ou estão drasticamente desatualizadas.


Essa invasão de inovação se expandiu para todo o tecido societário de maneira inédita e chega agora as instituições políticas. A invenção do governo representativo foi uma alternativa para lidar com problemas igualmente impostos em sua época, mas ele sempre teve aspecto elitista. O homem comum apoiava o governo pelos efeitos de ordem e bem-estar sentidos na sua vida cotidiana. Os mecanismos desse governo não os interessavam, contanto que gerassem bons resultados. Essa expectativa de bons resultados pode estar mudando.


Passamos nas últimas décadas por um momento de transição em nossa história. Muito do que sabemos sobre a estruturação da sociedade brasileira, produzida pelo conhecimento das ciências sociais do passado, precisa ser revisto e atualizado com os elementos originados dessa nova sociedade. Por exemplo, a ideia de conciliação política tão destacada na história brasileira passada vai perdendo sua eficácia como mecanismo político de acomodação de interesses em conflito. Os conflitos na esfera política foram lidos por uma certa tradição antes dominante nas ciências sociais como expressão das lutas de classes e dos interesses econômicos conflitantes entre classes. Chegamos depois a compreensão que as instituições são importantes e contam como elementos autônomos no conjunto da trama societária. Dessa época ainda guardamos a teoria que as instituições políticas são as últimas a mudarem depois da resolução parcial dos conflitos na esfera econômica atingir o patamar de um vencedor. A política procuraria o ajuste de arranjo adequado em formas legais dessa dinâmica econômica sucedida na base da sociedade. Parte dos problemas da sociedade brasileira é herança do passado, acrescido de impactos trazidos pela inserção da sociedade numa nova ordem mundial. No presente, o desafio se concentra no sistema político tradicional que resiste com os meios ainda disponíveis.

 

Valmir Lopes

lopes.valmir@gmail.com

Cientista Político e Professor da UFC

 

GABRIELLE ZARANZA

TAGS