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Ceará, terra de paradoxos

01:30 | 29/03/2018

A empresa que lidera o mercado de águas no País é cearense. Conforme o Euromonitor Internacional, o Grupo Edson Queiroz é líder nacional no mercado de água engarrafada, com 10,7%. O placar se refere até antes da compra anunciada ontem. A empresa cearense adquiriu a Nestlé Waters Brasil, a quinta colocada no ranking, com 1,9% do mercado - um oceano de água doce de R$ 24 bilhões no ano passado e 10,3 bilhões de litros.

 

Ainda a água. Com capacidade de armazenamento de 6,7 bilhões de m³, o Castanhão é o maior açude da América Latina. Construído em meio a polêmicas, sucedeu no posto de maior barragem do Ceará, o Orós, equivalente a pouco mais da metade da capacidade do Castanhão.

 

Agora os alimentos. A líder de massas e biscoitos do País tem sede no Eusébio, na Região Metropolitana de Fortaleza. A M. Dias Branco é uma gigante detentora de impressionantes 32% de market share (fatia de mercado) no Brasil. Na Bovespa, atingiu R$ 20.390 bilhões. 

Telecomunicações. No Interior do Estado, fica um dos cases nacionais no setor. A Brisanet, com sede em Pereiro (CE), atende 170 mil famílias no interior do Ceará, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte com serviços de telecomunicações – internet, TV e telefonia. Já entregou mais 10 mil quilômetros de fibra ótica até no fim do mês passado. Acaba de fechar R$ 20 milhões com o BNDES, em operação que o Banco do Nordeste tinha o maior interesse. 

Um dos destaques no segmento de saúde privada é de Fortaleza. O Hapvida tem cerca de 4 milhões de clientes em 11 estados. É um case de eficiência como empresa e está em pleno período de silêncio que antecede sua oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês).

 

Poderia mencionar ainda o SAS, um dos principais sistemas de ensino do País, com 80 novas escolas em 2018 e 430 mil alunos. Tem planos de igualmente ir para a Bovespa. E nem se fale nos índices de aprovação no ITA, IME e Enem. Vide as escolas privadas locais. Farias Brito, 7 de Setembro, Master e outros. Ou também no varejo farmacêutico. A Pague Menos tem mais de 1 mil lojas, mas quer duas mil e um IPO. 

Água, comida, telecomunicações, educação, saúde. Referências nacionais na terra que lida com a falta d’água, com a pobreza extrema e com ainda vergonhosos 15,2% da população analfabeta. Há 1,34 milhão de pessoas analfabetas no Estado, o que confere ao Ceará o quinto lugar do País. Dados do IBGE. 

Os tais paradoxos podem ser lidos por ângulos distintos. Tanto servem para apequenar, como para exortar. Existe uma imensa dificuldade cearense de lidar com os extremos. Vivemos o que um dia já definiram como ciclos emocionais. Ora de ufanismo - com a sua inerente autoestima superestimada, como se fôssemos uma ilha da prosperidade (lembram?) – ora catastrófica, sapecada de derrotismo, como vemos no caso da segurança. Parece faltar o básico: racionalismo. Isto vale para os governantes. Por vezes, jovens, mas enquadrados em modelo anacrônico e, por esta razão, velhos. E vale também para as ruas.

 

Jocélio Leal leal@opovo.com.br Jornalista do O POVO