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A degradação do trabalho e a violência

01:30 | 19/03/2018

O avanço da violência se dá num período em que há desmonte das políticas do trabalho e degradação da legislação trabalhista. Tal estrago pode fazer com que a atividade laboral não seja mais capaz de tirar os indivíduos da pobreza ao passo que as remunerações e a proteção social passam a ser cada vez mais incertas e temporárias para maior parcela da população.


É preciso encarar a realidade dos fatos de que a falta de perspectivas em relação ao futuro dos mais jovens parece engrossar as fileiras das facções. A questão não é simplesmente a dureza do presente, com as vulnerabilidades sociais a que estão imersos, mas a impossibilidade de se vislumbrar um horizonte mais promissor.


Segundo dados da Comissão pela Prevenção de Homicídios na Adolescência, dos 224 jovens assassinados no Ceará, analisados pela Comissão, apenas quatro não tinham experiência de trabalho. Eram crianças e adolescentes que, de maneira muito precoce e precária, buscaram sobreviver de forma digna pelo trabalho, ainda que em ocupações degradantes em termos de condições de trabalho e de proteção social.


É preciso chamar atenção dos que acham que estão alheios aos efeitos da reforma trabalhista de que parcela dos jovens assassinados não tinha relação com a criminalidade, evidenciando que há diferentes colateralidades entre as relações sociais, ainda que estas possam ser seletivamente situadas pelo olhar do cidadão, do pesquisador ou do gestor público.


Assim, pouco adiantará os progressos na educação, especialmente nas séries iniciais, se parcela das crianças e adolescentes não consegue avançar nos bancos escolares e, muito menos, fazer a transição entre os mundos da escola e do trabalho. Parcela expressiva de jovens de 15 a 29 anos não estuda, não trabalha e não procura oportunidade laboral. O último dado da Pesquisa de Emprego e Desemprego, que foi descontinuada pelo governo estadual, mostrou que havia 176 mil jovens nessa situação somente na região metropolitana de Fortaleza, no ano de 2016, sendo que um em cada quatro destes jovens sequer havia completado o ensino fundamental e vivia na pobreza. Ou seja, o combate à criminalidade tem que efetivamente passar por ações estruturais que melhorem a qualidade de vida e permitam que os mais jovens tenham reais perspectivas de futuro. O desmonte das políticas do trabalho e da legislação trabalhista somente agravará uma situação que, nos dias de hoje, já é alarmante.

 

Erle Mesquita

erlebr@yahoo.com.br

Sociólogo e cientista político

GABRIELLE ZARANZA

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