VERSÃO IMPRESSA

Sem assunto

01:30 | 03/02/2018


De barata voadora, escuro, alturas, falar para uma multidão. De ressaca moral, esquecimento, boleto vencido, da morte, solidão. Sem querer posar de marrenta, a página vazia é hors concours em apavoramento. Acostumada ao texto falado, vez em quando me pelo de medo da falta de assunto na hora h, aquele temor de ser enjeitada pelas ideias, admito. Agora mesmo, dedos embebidos de ansiedade catam letras no teclado: o que pode haver nos acontecimentos dentro das horas de recolhimento que caiba no papel?


Longe da rotina de trabalho, o tempo das férias pode ser o da escolha pelas trivialidades. Perambular pelo parque sob a chuva fina de SP, comer pastel na feira e voltar com o peixe fresco do almoço, saborear o chope artesanal vendido ao som de blues na esquina, ficar entretida com a madrugada fria de verão e o jogo nunca jogado, abraços e sorrisos afugentando saudades. Mas sem selfie? Nem cliques nem curtidas. Antes do “ponto, parágrafo”, um parêntese. Noite passada insistia em registrar a bocarra do tubarão descomunal. Um esforço para ajustar foco e o bicho tragou parte da tela que nos protegia, a mim e ao celular. Tornando do susto, restava a luz da tela a piscar atualizações feito vagalume no breu do quarto.
 

Como não se vive só de insignificâncias mas também de invisibilidades, ouço minha amiga que conta os passantes e lhes adivinha a falta de tostão para a janta fora de casa. Há mais gente vivendo nas ruas. O Rio nunca esteve tão pra baixo. Se compadece. Macacos mortos por gente desesperada. Febre cor-de-descaso. “Que tiro foi esse?” Foi tiro de fuzil. Gente morta na passagem do bloco na Tijuca. Gente morta às dezenas. Nas Cajazeiras. No Itapajé. Chacinas que não se vê. Um motorista da Uber fala de equívoco nos discursos de quem deveria ver. Fala de medos bem mais reais que minha página limpa.
 

Junto do tempo das amenidades, das boas e nem tão boas novas ditas pelos amigos de carne e osso, dos adereços para o carnaval - “Tudo balato demais!”, a chinesa na Senhor dos Passos -, tem miséria e violência. Temer e as colegas de auditório - “Quem quer dinheiro?”. E, claro, há Cristiane Que Brasil Você Quer Para o Futuro. Não esqueça de usar pau de selfie e gravar na horizontal.

 

Maisa Vasconcelos
maisavasconcelos@gmail.com
Jornalista do O POVO

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