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Seguimos apavorados

01:30 | 22/02/2018

Em meados de 2013, um movimento apartidário, espontâneo e movido pelo clamor das ruas por segurança nasceu no Ceará. A ele deram o nome de “Fortaleza Apavorada”. Era até ingênuo, mas cumpriu um papel. Valendo-se do alcance das redes sociais – estes trilhos em cujas bitolas cabem de tudo – emparedaram o Palácio da Abolição.


Por não ter sua gênese nos ditos movimentos sociais (braços de partidos políticos de esquerda e, a propósito, no Poder desde 2006 no Estado) foi execrado por setores da classe média partidarizada e até por redações.
Tinha DNA “aldeotino” e não suburbano. Portanto, aos olhos da rejeição, era supostamente algoz e não vítima. E tome ironia...tal qual sofrem aqueles que foram às ruas pedir o impeachment da presidente Dilma – de Governo atolado por política econômica desastrada e pela incapacidade de reagir no Congresso. Assim como ironizam as panelas batidas (um barulhinho ruim) e querem fazer crer no início da crise a partir de Temer. Mas este é outro crime (171). O movimento tinha como símbolo uma mão ensanguentada.


Em verdade, o discurso do medo não faz mesmo bem. As pessoas seriam mais felizes caso preferissem o canal OFF (com muito kite, Wind e surf) aos programas policiais da hora do almoço. Isto aumenta a vontade de viver. Já as atrações policiais, do jeito delas, exibindo a morte, também compõem o negócio do crime. Do mesmo modo que as tardes seriam mais belas se as pessoas não compartilhassem pelos grupos de aplicativo as execuções dantescas, sob o pretexto de indignação.


Passados cinco anos do “Fortaleza Apavorada , estamos ainda mais. No novo Governo, ninguém ainda parece capaz de dar uma resposta convincente aos clamores herdados da Era Cid. Uma Era de SUVs; novo fardamento; helicópteros; patinetes motorizados; uma tentativa frustrada de mudança conceitual, com o finado (não oficialmente) Ronda do Quarteirão; e aquela sensação de que perdemos muito tempo e dinheiro.


O Ronda do Quarteirão, a propósito, pretendia aproximar os policiais da população. E até conseguiu no começo. Havia relatos de escolta entre a parada de ônibus e a casa. As pessoas recebiam em domicílio o nome dos policiais da área e o celular a bordo da viatura. Era bom demais para ser verdade, pensava o contribuinte. E era.


O coroamento daquela fase foi um motim de PMs do qual emergiram seus chefes: um capitão e um cabo. Um hoje deputado federal e coordenador da bancada cearense e o outro deputado estadual disposto a concorrer ao Governo ancorado no discurso monotemático da segurança, o mesmo de seu candidato a presidente. Pela ordem, leiam-se Cabo Sabino, Capitão Wagner e deputado-capitão Jair Bolsonaro.


O Governo Camilo lançou um programa intitulado Ceará Pacífico. Em suma, sustentado na sábia premissa de que nem só de polícia se faz segurança pública. No combo, ações sociais e a ideia de agilizar o trabalho do Judiciário, promoções e contratações de militares, bem como a compra de carros, motos e etc e etc...Detalhe: para casar com o slogan “Novas ideias, novas conquistas”, divulga ad nauseum a expansão do Batalhão Raio, um lançamento de 2002, do Governo Lúcio Alcântara.


Na manhã de terça-feira, no Cambeba, em conversa com policiais e pesquisadores do Ipece, o professor Leandro Piquet (USP) disse que crise da segurança no Brasil é filha da debilidade das instituições de Segurança e Justiça. Ninguém discorda. E seguimos apavorados.

 

Jocélio Leal
leal@opovo.com.br
Jornalista do O POVO
 

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