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O recado forte das ruas que brincaram

01:30 | 16/02/2018

O Brasil, costuma-se dizer, não é um País para amadores. Válido para tempos de calmaria e estabilidade, o axioma é ainda mais aplicável para momentos como o atual, em que uma realidade predominantemente dura nos leva a crer que o caos está instalado, em meio a uma sensação forte de que a política saiu dos trilhos, os governos perderam a condição de governar, as autoridades de segurança pública estão sem autoridade, enfim, há um clima de salve-se quem puder que muitas vezes parece afetar a fé de todos no futuro. Tudo isso é fato, mas um evento como o Carnaval, com a dimensão e as características deste de 2018, trazem de volta aquela ideia de que, definitivamente, não somos de fácil explicação como nação.


O desânimo e o cansaço flagrantes no dia-a-dia das ruas foram sacudidos por quatro dias (mais ou menos) de uma mobilização que teve a festa como marca principal, é verdade, embora ofereça muito além disso quando observada por um viés de profundidade maior. Há aquele que considera simplesmente um tempo perdido, que seria mais útil ao País se estivéssemos todos trabalhando, produzindo etc. É uma forma de enxergar a situação e, enfim, respeite-se. Outra visão, que é a que abraço, sugere haver no evento uma energia popular que indica caminhos novos a percorrer na busca de soluções que nos apontem uma saída possível diante de uma crise como esta de agora. Falo dos problemas cotidianos que nos vemos obrigados a enfrentar neste Brasil, verdadeiramente desafiador. À maneira que as circunstâncias especiais permitem, a população mostrou de novo que não entregou os p0ntos, passo sem o qual, neste caso sim, seria impossível a reversão do triste cenário que o País oferece hoje aos seus moradores e ao mundo.
As nossas cidades apresentam um quadro de degeneração urbana muito evidente. Uma situação que não esteve mantida sob o tapete, escondida, enquanto transcorria a folia carnavalesca, pelo contrário, festa e realidade corriam lado a lado durante todo o tempo. Até mesmo a Sapucaí, com suas escolas de samba luxuosas, viu a crise desfilar embalada por enredos críticos, fortes, polêmicos, como aqueles que ofereceram as agremiações que, no final, foram reconhecidas ao disputarem o título do ano quase que ponto a ponto: a Beija Flor, com sua crítica aguda à classe política, e a Paraíso do Tuiuti, através de um bem elaborado manifesto questionador do fim da escravidão, 130 anos depois de assinada a Lei Áurea, ligando o quadro histórico à reforma trabalhista recentemente aprovada pelo Congresso Nacional. Política profunda, na veia.
  

Dá-se uma situação que impõe àqueles que estudam o Brasil nas suas atividades acadêmicas dificuldades novas para entender como aqui as coisas funcionam. Até pelo fato de as imagens de ruas felizes dividirem espaço, especialmente no caso do Rio de Janeiro, com terríveis flagrantes da violência cotidiana que nos assola, assusta, mas, pudemos demonstrar mais uma vez, não nos derrota. Diante de governos desorganizados e frágeis, de uma política de costas para os representados em muitas situações, vê-se a contrapartida de uma sociedade que resiste na briga pela preservação de valores que perpassaram tempos e crises. Um recado de grande força, especialmente em um ano eleitoral.

 

Guálter George
gualter@opovo.com.br
Editor do O POVO
 

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