VERSÃO IMPRESSA

Confronto das Ideias \ Comportamento

01:30 | 08/02/2018


Em tempo de Carnaval, blocos e canções exploram nomes e versos com duplo sentido ou conotação sexual. A iniciativa teria reflexo na naturalização do assédio sexua? 

 

SIM

Em 2017, durante os quatro dias de Carnaval, as denúncias de assédio sexual subiram 90% em todo o Brasil, de acordo com a Secretaria de Políticas para as Mulheres. É nesse período que as fantasias saem do armário, que a liberdade fica escancarada e a criatividade vem à tona. Acho incrível essa liberdade que nós nos permitimos ter no Carnaval, ao mesmo tempo fico furiosa e triste em saber que certas pessoas usam dessa festa para refletirem algo que vai além do Carnaval. Refletirem o machismo da sociedade.


Infelizmente não é só no Carnaval que o machismo é propagado, mas é neste período que ele fica mais exposto. Objetificação do corpo da mulher, puxões de cabelo, insistência depois do “não”, músicas de cunho machistas e blocos de Carnaval que trazem no nome duplo sentido ou conotação sexual, tudo isso colabora para um cenário onde a mulher é violada. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Data Popular revela que 61% dos homens afirmam que uma mulher solteira que vai pular Carnaval não pode reclamar de ser cantada; 49% dizem que bloco não é lugar para mulher “direita”; e 49% acreditam que as mulheres gostam quando são chamadas de gostosa. A violação do corpo da mulher e o desrespeito às suas vontades durante o Carnaval são encarados com naturalidade pela sociedade. Precisamos mudar isso, precisamos mudar a sociedade como um todo.
 

O comportamento machista ainda acha que uma mulher não pode usar uma fantasia e pular Carnaval apenas para se divertir. Ele acredita que ela está disponível e, com isso, pode assediá-la livremente sem ser punido. Não existem dados específicos sobre esse tipo de violência nos dias de festa e prévias, o que é fundamental para prevenção e enfrentamento do problema. É preciso falar o que acontece no Carnaval, falar sobre o assédio, denunciar (180) e exigirmos das autoridades uma política de proteção para as mulheres durante o período carnavalesco.  

 

Thaís Costa
thaisclim@gmail.com
Percussionista da banda Damas Cortejam


NÃO


É fato que algumas músicas ou blocos de Carnaval trazem em seu nome algo que pode ser preconceituoso.
 

Mas a sociedade, há tempos, vem se conscientizando que precisa ter cuidado com algumas expressões para não ofender ninguém. Antes essas expressões eram usadas sem constrangimento, mas hoje temos consciência que podem ser ofensivas.
 

Nos últimos tempos, blocos carnavalescos trazem canções e nomes com duplo sentido. Em alguns casos, devemos entender que no Carnaval tudo é brincadeira. Mas muitas pessoas, não aceitam, alegam que há preconceito, e pedem sua exclusão do repertório. Exemplo disso é “A Cabeleira do Zezé.” Alguns interpretam sua letra como uma ofensa aos homossexuais, mas não é, até porque, hoje, alguns homossexuais assumem sua sexualidade sem problemas. Além do mais, chamar uma pessoa de gay não é mais agressivo como foi no passado. Hoje quem é gay fala “sou gay sim, e daí?”
 

Quando “ A Cabeleira do Zezé” foi lançada, não tinha essa percepção. As pessoas cantavam a música como uma brincadeira com os cabeludos.
 

Outro exemplo é o bloco das Trepadeiras, criado no Rio de Janeiro e formado por um grupo feminista, cansadas de não poderem expressar sua sexualidade. Quase 100% dos participantes do bloco são mulheres. Somente agora, com quase dez anos, elas aceitam a participação de homens, embora em número limitado.
 

Alguns veem o bloco das Trepadeiras como uma forma de agressão ao público feminino, mas muitas mulheres não consideram dessa maneira. Assim, quem critica esses blocos acaba ficando constrangido.
O Carnaval de rua não pode ser visto de forma muito rígida, porque assim irá reafirmar preconceitos antigos. 


Precisamos ter limites, sem dúvida, como nas agressões físicas, e assédio, tanto moral quanto sexual, mas essas marchinhas, desde sua criação, abrem um caminho para que a sociedade possa discutir e acabar com o preconceito. 

 

Felipe Ferreira
felipeferreira@pobox.com
Professor e coordenador do Centro de Referência do Carnaval da Uerj

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