VERSÃO IMPRESSA

Renato Abê: "Deixa os garoto brincar"

01:30 | 06/01/2018

O clássico verso de funk que ficou famoso pelas mãos do DJ Diney em 2007 cabe muito bem para um contexto que a Rede Cuca está vivendo: “Deixa os garoto brincar”. No último dia 3, um grupo de adolescentes foi interrompido por policiais militares durante “rolezinho” no Cuca Mondubim. Palavra que amedronta a classe média brasileira desde 2015, quando proliferaram esses encontros nos shoppings País afora, o “rolezinho” no equipamento público fortalezense consiste na reunião de jovens em torno de uma caixa de som, que foi arbitrariamente levada pelos agentes na primeira quarta-feira do ano.


Segundo relatado nas redes sociais pelos próprios adolescentes, os jovens sofreram inesperado “baculejo”, sendo revistados pela PM e acuados. Na tentativa de diálogo, os meninos ouviram que “aquilo não era educação familiar” e que eles “não sabiam nem o começo do hino nacional”. De acordo com a postagem, que teve centenas de compartilhamentos, até a música ouvida foi motivo de repreensão: “Pode tocar tudo menos funk”. Em matéria publicada no O POVO Online ontem, a Polícia foi procurada para dar sua versão do ocorrido, mas até o fechamento deste artigo não houve retorno.


Infelizmente essa não é a primeira vez que caso semelhante ocorre. Em outubro do ano passado, um grupo de jovens que estavam usando piscina do Cuca Jangurussu foi expulso pela Guarda Municipal. Segundo denúncia do Fórum Jovens Jangurussu, os agentes foram violentos e, conforme a própria Guarda, houve uso de bala de borracha. Ação totalmente fora de sintonia com a proposta dos Centros Urbanos de Cultura, Arte, Ciência e Esporte (Cucas).


Quem convive nesses espaços sabe o quanto eles são importantes para os bairros dos entornos. Mais do que um centro de cursos e programações, o Cuca é um território para ser jovem em suas múltiplas formas. A boa convivência impera. Lá, os “manos” do rap convivem bem com as “monas” do K-pop e é assim desde que o Cuca é Cuca. Não tem espaço para ação inibidora que quer ditar até o som que eles escutam. É preciso que os agentes de segurança entendam a lógica daquele lugar e que a administração bata o pé e garanta a real segurança dos seus frequentadores. Não tem mais volta. Mesmo com os desmontes internos e os olhares tortos externos, os Cucas pertencem à juventude fortalezense e bala de borracha nenhuma vai mudar isso.

 

Renato Abê

Renatoabe@gmail.com
Jornalista do O POVO

 

TAGS