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Ideias. Na democracia, governo impopular é governo ruim

01:30 | 19/01/2018

Um ponto inicial de discussão, que considero inegociável: governo impopular é, sem margem para dúvida, governo ruim. É da democracia, como um dos seus efeitos naturais, que uma gestão pública tenha seu sucesso medido pela satisfação que proporciona às pessoas, o que torna sem qualquer sentido a ideia que se tenta estabelecer no debate político brasileiro atual de que a falta de apoio popular pode funcionar como espécie de estímulo para alguém levar adiante uma agenda “amarga e impopular”. Nada mais mentiroso e contraditório.

O publicitário Nizan Guanaes, com sua peculiar e reconhecida genialidade para vender produtos e ideias, introduziu o debate quando, ao participar de reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República, lá em 2016, sugeriu ao governo Temer fazer uso de sua “baixa popularidade” para impor a tal agenda antipática, na visão dele necessária ao País. Houve, na época, quem zombasse da situação, definisse como engraçada e ingênua, até, a manifestação do inquieto baiano. Pois sim, no Palácio do Planalto tudo foi levado muito a sério e inspirou o deslanche de um pacote de medidas exatamente na linha proposta, na versão de quem as defende olhando mais para aquilo que o cidadão precisa do que exatamente para o que ele pede. Desta fonte vieram, especialmente, as polêmicas reformas dos sistemas trabalhista e previdenciário, nos dois casos com um nível de profundidade que ninguém imaginava possível de ser levado adiante por uma gestão pouco aceita, cercada de problemas por todos os lados, e, pior ainda, liderada por um governante de carisma zero e capacidade de mobilização social nenhuma.  

O resultado de tudo isso é uma permanente busca de justificar os meios pelos fins. Um governo sem apoio torna mais difícil a negociação com o Congresso, abre o flanco a parlamentares ávidos por tirar proveito da situação, como tem acontecido abertamente desde quando as tais reformas estruturantes de Temer começaram a tramitar na Câmara e no Senado. Reivindicações antigas, algumas imorais e claramente contrárias ao interesse do conjunto da sociedade, voltam à mesa e acabam negociadas em condições de prejuízo para o Estado. As isenções tributárias justificadas apenas pela força do lobby de setores econômicos mais organizados, a distribuição de cargos sem critério técnico algum e a farra de liberação de recursos para demandas apenas políticas resultam da falta de força e de voto de um governo que se lança ao debate sem quase nenhum respaldo público.  

O apoio popular continua sendo condição imprescindível, ao meu ver, para que um governo seja exitoso. Nada mudou nesse sentido e considero difícil que isso um dia mude, falando-se de um ambiente democrático. É de uma grande extravagância política imaginar o contrário. O que não significa que abraçar toda pauta corporativa e fugir de qualquer ação reformadora, apenas para manter intacta a simpatia popular, seja o recomendável à construção de uma gestão de qualidade. O erro, que anda ganhando muitos adeptos ultimamente, é de transformar uma eventual impopularidade quase em exigência para um governo fazer o que é certo. É invencione pura criar vínculo direto entre as duas situações.

 

Guálter George gualter@ opovo.com.br Editor-executivo de Política  

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