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Editotrial: Uma situação inaceitável

Famílias da periferia da cidade estão deixando suas casas com medo da ameaça de criminosos

01:30 | 06/01/2018

A sentença de criminosos, que se abate - cada vez com mais violência - sobre os moradores das periferias de Fortaleza, é alguma coisa para ser classificada, no mínimo, como inaceitável. A tragédia de pessoas obrigadas a deixarem suas casas por ordem de gangues criminosas - poder paralelo que se organiza contra o Estado, com leis próprias e implacáveis - não pode ser vista como coisa normal, nem pelas pessoas que ainda não sofrem o problema na pele, e muito menos pelo Estado. Caso esses ataques não sejam contidos, eles tendem a se alastrar, e vão pôr em risco moradores de qualquer bairro, atingindo, inclusive, a próprias as instituições da democracia.


Este jornal publicou ontem matéria narrando um desses casos, acontecido no Barroso, em uma comunidade que, por ironia, se chama Unidos Venceremos. Famílias de uma das travessas do bairro acordaram com o muro pichado, ordenando que todos abandonassem as suas casas, sob a ameaça de morte. Segundo os moradores, os criminosos querem usar o lugar como ponto de distribuição de droga. A repórter Jéssika Sisnando esteve no local e contou 20 famílias mudando-se de suas casas, com medo da ameaça dos marginais. A polícia está patrulhando a comunidade, mas certamente o dispositivo acionado logo deixará o bairro, expondo novamente os moradores. De problemas parecidos, padecem várias outras áreas na periferia da cidade.


Por que a situação chegou a esse ponto?


Sem dúvida, grande parcela da responsabilidade cabe aos diversos governos estaduais, que tiveram uma política errática e descontínua na área da segurança pública, diferentemente do que aconteceu na educação, por exemplo. O governo demorou, inclusive, para reconhecer que o crime organizado se instalara no Ceará. Interrompeu um planejamento de segurança que vinha obtendo alguns resultados positivos, optando por operações espetaculosas, de pouco efeito prático.


O secretário da Segurança Pública, por sua vez, se gaba de entrar em qualquer território da cidade. De fato, ele o faz, porém cercado de policiais armados. O problema é viver cotidianamente nesses locais, cujas populações estão à mercê das quadrilhas e não têm a quem pedir socorro.

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