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Edite Colares: Vamos tirar Reis?

01:30 | 06/01/2018

Em Fortaleza ainda é possível vivenciar a Tiração de Reis, de porta em porta, nas ruas de bairros com forte tradição cultural, como é o caso do Benfica, ou com maior frequência, em bairros periféricos onde, em sua maioria, são compostos por casas. A Tiração de Reis é o que sobreviveu do que já foi um folguedo muito mais amplo e complexo: o Reisado. Tal manifestação mantém-se atualmente, em Fortaleza, como espetáculo de grupos parafolclóricos, mas já não se tem registro do Reisado, enquanto prática de raiz em comunidades locais. O antigo Reisado trata-se de um conjunto de numerosas danças, muito variadas e entremeadas de cenas teatrais. São cerca de dez passos diferentes executados de forma sincrônica por brincantes que sapateiam, cruzam espadas, fazem embaixadas em movimentos ritmados de extrema riqueza performática.


Compõe os registros de manifestações tradicionais, em glória ao nascimento de Jesus, e representam a visita dos Reis Magos, com canções entoadas, de porta em porta, ou em exibição pública, numa tradição que recria, a manifestação popular portuguesa, que recebe o nome de janeiras, também relativa ao ciclo natalino dos doze dias. Nossos colonizadores já trouxeram, junto aos preceitos religiosos, o culto à sagrada família, a visita dos Reis em adoração ao menino Jesus. Mas o reisado, manifestação popular genuinamente brasileira, é um teatro peregrinal, que tem seu nascedouro nas Janeiras portuguesas, mas que agregou elementos próprios, como: o boi, a burrinha, a luta de espadas, dentre outros, diferenciando-se em originalidade.


Ao observarmos a riqueza simbólica de um personagem como o Boi, por exemplo, notamos que cada personagem deste folguedo corporifica-se pela criatividade de brincantes que movimentam o auto, e buscam no símbolo do nascimento, da celebração coletiva da vida, da fertilidade da natureza, da partilha, uma possibilidade de vivência cultural, que relembra nossos ancestrais.


Nas ruas de Fortaleza detectamos nos últimos anos, uma perda crescente, de elementos desta manifestação, além de uma descaracterização progressiva, desta prática brincante, que foi deixando em muitos bairros de ser encontrada nas Noites de Reis. Alertamos para importância desta vivência cultural carregada de sentido e veículo de expressão num reencontro vital com a herança popular resistindo a uma passividade criativa, saindo da exclusividade de padrões culturais ditados pela mídia e pela indústria cultural. o reisado, manifestação popular genuinamente brasileira, é um teatro peregrinal, que tem seu nascedouro nas Janeiras portuguesas

 

Edite Colares

edite.marques@uece.br

Professora Universitária -Uece

 

 

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