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Artigo. Menos julgamentos, por favor

01:30 | 30/01/2018

“O corpo dela é ótimo, mas o rosto parece um maracujá... Ela devia fazer um botox”. “Não tenho nada contra, mas ela devia se depilar. É questão de higiene”. “Ah… mas ela ficaria mais linda se deixasse o cabelo crescer”. Se alguém me dissesse ter ouvido/lido tais frases, talvez eu duvidasse. “2018, tempos de empoderamento… Não é possível”, pensaria.  

No entanto, essas são três cobranças reais direcionadas a três mulheres. Cobranças tão naturalizadas que se perderam em meio aos discursos. E eram mulheres falando para mulheres sobre mulheres.  

Que o mundo é machista não é nenhuma novidade. Que há mulheres machistas tampouco. Mas eu, que tento todos os dias ser mais observadora e ouvinte do que opinativa e praticar mais o que aprendi se chamar sororidade, me entristeço diante desses posicionamentos e da verbalização deles. 

 

Encontrar mulheres que defendem a disciplinarização e a padronização do corpo alheio é incômodo e reforça o senso de que mulheres estão em constante disputa (outra herança do machismo).Não acredito que isso seja forma de “estimular” outra mulher “a se cuidar”. Diminuir o que a pessoa escolheu ser/trajar/expor não é “desejar o melhor”. É desrespeitoso e agressivo.  

Ouvi a “sugestão” sobre a aplicação de botox dias depois de ter lido uma notícia sobre a atriz Betty Faria, 76. Em 2013, após ida à praia de biquíni, ela foi atacada e chamada de “velha baranga”. Agora, cinco anos depois, Betty inspirou um encontro chamado Senhoras de Biquíni, no Rio de Janeiro. E se disse satisfeita por estarmos em uma fase de “rebelião saudável” das mulheres de qualquer idade.  

Fiquei refletindo sobre a conclusão de Betty e me identifiquei com ela como integrante de uma bolha (crescente, é verdade) de aceitação, de empoderamento, de viver o próprio corpo, de “rebelião”. Infelizmente, ainda é uma bolha — basta ver os comentários expostos no começo deste texto. Mas o tempo é de expandi-la. Mulheres precisamos “sugerir” apenas que outras mulheres respeitem o corpo, o espaço, os desejos próprios e das outras. Sejamos estímulo e fortalecimento conjunto, não julgamento. O discurso fortalece os atos e ajuda a transformar. 

 

Mariana Lazari marianalazari@opovo.com.br Editora-adjunta do O POVO

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