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Martonio Mont'Alverne Barreto: "Jerusalém"

01:30 | 18/12/2017

Uma das primeiras significativas consequências da decisão do presidente Trump quanto ao reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel é que se tem mais um elemento objetivo a denunciar mudança da influência americana na região. A Rússia derrotou em pouco mais de um ano e meio o Estado Islâmico na Síria, a ponto de retirar suas tropas deste País. Fortaleceu a capacidade militar russa e dilatou sua atuação. Agora, os EUA conseguiram atrair a quase unanimidade de seus aliados árabes contra sua posição, além dos parceiros ocidentais, a reprovarem a atitude de autorizar a mudança da embaixada americana. A contribuir para a tensão, o presidente turco Erdogan conclamou a todos os representantes na reunião da Cúpula da Cooperação Islâmica ao reconhecimento de Jerusalém como capital da Palestina. Nada menos que 20 chefes de Estado árabes participam da Cúpula.


Jerusalém - Al-Quds, para os árabes: “a sagrada” - pode ser a prova da incapacidade do componente religioso de fazer a paz. Se judeus foram os primeiros a chegar, cristãos e muçulmanos também marcam a cidade e fazem dela sua terra santa. Todos reivindicam a cidade como sua, de forma excludente uns dos outros. A história da cidade quase não conhece a paz no último milênio. Porque um quer se sobrepor ao outro, e recusam o universalismo da convivência tolerante. A decisão de Trump é uma resposta mais aos seus problemas internos, que se agravam com a derrota para o Senado no tradicionalmente republicano Alabama. Trump foi ainda todo ouvidos ao seu eleitorado fundamentalista cristão em favor da decisão. Parece um erro decidir sobre tão delicado assunto como parte da solução de desafios políticos internos.


Não bastasse a reprovação da atitude de Trump mundo afora, mesmo em Israel há setores políticos que sempre discordaram da orientação reacionária de Netanyahu, cujo governo representa obstáculo à paz. Shimon Peres referia-se aos palestinos como “meus irmãos”; Itzak Rabin pagou com vida por sua ousadia, que sua viúva, Leah, registrou em obra biográfica. A herança destes homens encontra eco em intelectuais como Judith Butler, recentemente vítima da histeria obscurantista no Brasil, para nossa vergonha.


Para os que se mostravam mais céticos, a decisão de Trump sinaliza que o pensamento de seu conselheiro especial Steve Bannon - os excitantes anos 30 estão de volta – vigora plenamente, e pode fazer com que o mundo suporte os resultados de desatinos; novamente cometidos pela razão humana usada para o mal: oh no, not again!

 

Martonio Mont’Alverne Barreto

barreto@unifor.br

Professor Titular da Universidade de Fortaleza (Unifor)

ADRIANO NOGUEIRA

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