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Márcia Alcântara Holanda: "Atleta aos noventa e quatro anos"

Essa prática leva os portadores da doença, antes imobilizados pela falta de ar, a uma vida ativa, participativa e saudável

01:30 | 12/12/2017

Krieger (2007), citado no Wikipédia, diz que atleta, no sentido amplo da palavra, é o indivíduo que pratica qualquer tipo de esporte, ou atividade física que cause prazer ou melhora da forma física e da saúde.


Dentro desse amplo significado, dona Alice, uma real e bonita senhora nonagenária, com IMC de 22, frequentadora assídua, há dez anos, de um Programa de Reabilitação Pulmonar (PRP) é uma atleta. Indicado por seu médico como terapia para controle da Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), que a incapacitava até para as atividades da vida diária, adotou o programa composto de educação para a saúde e prática de exercícios físicos capazes de resgatar pequenas áreas pulmonares ainda funcionantes. Essa prática leva os portadores da doença, antes imobilizados pela falta de ar e vida sedentária, a uma vida ativa, participativa e saudável.


Dona Alice é atleta de fato porque: mexe-se muito na esteira, anda de bike e faz steps, puxa ferro na estação de musculação, pratica alongamentos, dança, caminha, usa os medicamentos corretamente, tudo sob a égide de um PRP aplicado por médico e fisioterapeuta.


Uma afirmativa da American Thoracic Society (ATS) e European Respiratory Society (ERS) recomenda fazer PRP como terapia formal para os doentes de DPOC, tanto quanto o uso dos medicamentos para controle da doença.


A verve de dona Alice contagia os seus 32 companheiros do PRP que, a exemplo dela, mexem-se muito também para o prazer de seus corpos e mentes.


Hoje ela se cuida muito bem e ainda voluntariamente organiza, peça por peça, o ambiente das atividades que exerce e providencia festas de aniversário e datas especiais do grupo. Vai às reuniões sociais do seu meio. Recentemente enfrentou uma enorme fila para comprar um livro e pedir o autógrafo de seu sobrinho neto, que publicou um belo conto, entre os dos 29 outros autores daquele livro.


Nascida e criada por pais amorosos, afeita à leitura e aos estudos, dona Alice formou-se em Direito e, por amor, casou-se com o professor Ferdinando Tamborine, grande mestre de línguas latinas do Liceu do Ceará. Viveram felizes até a partida dele para o eterno.


A asma e pneumonias repetidas minaram os seus pulmões, que com o tempo sofreram restrições e obstruções em suas vias respiratórias, provocando-lhe falta de ar, impedindo-a de cuidar até de si própria.


Hoje, vencidas essas restrições pelo PRP, já como atleta, ela diz: “Respiro muito bem, faço tudo o que eu quero e gosto”. E completa: “Foi me mexendo muito no PRP que encontrei muitos momentos felizes. Posso dizer que hoje sou feliz”.


Mexer-se é um dos maiores trunfos para uma longevidade saudável de corpo e mente.

 

Márcia Alcântara Holanda

pulmocentermar@gmail.com

Médica pneumologista;membro da Academia Cearense de Medicina

 

ADRIANO NOGUEIRA

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